Nos Açores, 77,1% das famílias enfrentam dificuldades financeiras, revela o Barómetro realizado pela DECO/PROTESTE, referente a 2022, divulgado ontem.
A Região Autónoma dos Açores e o Alentejo (78%) são as zonas do país onde mais famílias passam por dificuldades financeiras, de acordo com os dados obtidos pela organização de defesa do consumidor.
No questionário, 8,5% dos açorianos responderam enfrentar “sérias dificuldades financeiras”, enquanto 68,6% admitiram ter “algumas dificuldades” - percentagens superiores às verificadas para o todo nacional, onde 65,6% dos cerca de cinco mil inquiridos disseram ter “algumas dificuldades financeiras” e 7,9% “sérias dificuldades financeiras”.
Segundo a DECO PROTESTE, as famílias numerosas com, pelo menos cinco membros, e as monoparentais continuam a ser os perfis familiares com mais dificuldades financeiras.
O estudo da DECO/PROTESTE calcula ainda o Índice da capacidade financeira dos portugueses, e, perante os resultados obtidos, a associação de defesa do consumidor afirma que, “em cinco anos de Barómetro DECO PROTESTE, que avalia a capacidade de os agregados familiares enfrentarem as despesas de alimentação, educação, habitação, lazer, mobilidade e saúde, 2022 foi o ano em que o índice atingiu o valor mais baixo”: 42,1 numa escala de 0 a 100 (quanto mais elevado for o número, maior é a facilidade dos agregados familiares em pagarem as despesas), tendo-se verificado uma descida de 3,2 pontos face a 2021.
E, acrescenta-se, “as perspetivas para 2023, por sua vez, não são mais animadoras, porque a tendência é para que o índice continue a descer”.
É precisamente nos Açores que este índice da capacidade financeira é pior (37,2), sendo que a perspetiva para 2023 agrava-se (32,8).
A seguir aos Açores, surgem os distritos de Vila Real (38) e Aveiro (39,4), verificando-se que em maior desafogo financeiro estão os distritos de Coimbra (47,1) Beja (43,5), Lisboa (43,5) e a Madeira (45,1).
Em 2022, habitação, alimentação e mobilidade foram as despesas que mais pesaram nas carteiras das famílias portuguesas. No entanto, o destaque vai mesmo para os bens alimentares, visto que a percentagem de famílias com dificuldade em pagar estas despesas aumentou 15%, comparando com o ano anterior: 44% dos agregados familiares sentem agora dificuldade em suportar as despesas alimentares.
Este cenário deve-se, em muito, à inflação e ao aumento dos preços dos produtos de supermercado. Quase 60% das famílias diz ter dificuldades em pagar produtos de primeira necessidade, como o peixe e a carne, e mais de metade (51%) garante ser difícil suportar despesas de mercearia, tais como massas, arroz, iogurtes, entre outros. A subida dos preços dos produtos empurrou seis em dez famílias para uma situação financeira mais difícil.
No que à habitação diz respeito, a manutenção da casa e as faturas de água, gás e eletricidade são as despesas que mais complicam os orçamentos da maioria das famílias portuguesas: 54% e 53%, respetivamente, assumem dificuldade em suportá-las.
Por sua vez, na mobilidade, as despesas com o carro são as que mais afetam as carteiras portuguesas: 67% das famílias têm dificuldades em suportar os gastos com combustíveis, seguros automóveis e manutenção do veículo.
DECO propõe Roteiro de medidas para sobreviver à crise
No Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, que se assinalou ontem, a DECO divulgou várias propostas para ajudar as famílias a sobreviverem à crise.
Deste modo, no âmbito da alimentação, a associação de defesa do consumidor defende a criação de um Observatório dos Preços e de legislação que reforce a obrigação de informação ao consumidor em produtos alvo de reduflação; defende ainda o reforço da oferta de produtos de marca própria e nacionais.
Para a habitação, sugere que haja incentivos fiscais, financeiros e sociais que garantam equilíbrio e oferta no mercado; programas inclusivos e adaptados às necessidades dos consumidores; e medidas simples e pouco burocráticas de apoio ao desempenho energético habitacional. E no que se refere à energia, a DECO pede a redução de IVA para 6% em todas as componentes da fatura de eletricidade e gás natural e a reavaliação dos critérios da tarifa social.
No âmbito das comunicações eletrónicas, sugere que os operadores disponibilizem um Pacote Económico de Serviços; e que sejam proibidos aumentos anuais dos serviços superiores à média ponderada da taxa de inflação dos últimos 10 anos, bem como o aumento dos preços e taxas dos serviços postais.
No que se refere à fatura da água e resíduos, a DECO sustenta que se aplique obrigatoriamente a Tarifa Social e que seja aprovado o Regulamento da Qualidade do serviço; e ainda que se implementem tarifas de resíduos que premeiem quem separe para reciclar.
Quanto à mobilidade, propõe-se o direito ao reembolso por parte de titulares de passes em caso de greve; criação de tarifa social para os transportes públicos coletivos; e aplicação de isenção de IVA no transporte ferroviário.
