Qualidade higiénica e sanitária do leite supera exigências europeias

Análises do Serviço de Classificação de Leite de São Miguel revelam que a contagem de células somáticas e de microrganismos totais está atualmente já muito abaixo dos limites fixados pela legislação europeia, o que é um indicador de qualidade higiénica e sanitária na produção de leite.




A qualidade higiénica e sanitária do leite produzido em São Miguel supera as exigências europeias, nomeadamente ao nível da contagem de células somáticas e de microrganismos totais.

Refira-se que as células somáticas revelam a saúde do úbere da vaca, sendo que valores elevados indicam inflamações como a mamite. Por seu lado, a contagem de microrganismos totais demonstra a higiene da ordenha e da conservação do leite na exploração.

Segundo dados fornecidos pelo Serviço de Classificação de Leite (SERCLA) da Ilha de São Miguel, ao nível da contagem das células somáticas, a média anual em São Miguel foi de 229 mil por mililitro de leite no ano de 2025. Ao nível dos microrganismos totais, o leite produzido em São Miguel tem registado valores nos últimos três anos entre 15,5 mil e 17,3 mil por mililitro de leite.

Em declarações ao Açoriano Oriental, a presidente do conselho diretivo do Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas (IAMA), Carolina Câmara, revela que “para se ter uma ideia, a legislação europeia fixa como limites 400 mil células somáticas e 100 mil microrganismos por mililitro”.

Por isso, afirma, “o leite de São Miguel está hoje muito abaixo de ambos e, no caso dos microrganismos, a menos de um quinto do limite”, pelo que não tem dúvidas em considerar que “produzimos excelência”.

E segundo Carolina Câmara, “também a deteção de antibióticos no leite caiu drasticamente e é hoje residual”.

Um resultado que no entender da presidente do IAMA “tem ainda mais valor porque, ao mesmo tempo, passámos a analisar com muito mais frequência o leite de cada produtor”, o que quer dizer que “mais análises significam maior probabilidade de detetar um problema e, mesmo assim, os casos diminuíram”.

SERCLA deverá atingir 1,5 milhões de análises este ano
Inaugurado há dois anos, o novo laboratório de classificação de leite de São Miguel foi uma obra financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com um investimento de 2,8 milhões de euros.

E conforme explica Carolina Câmara, “um dos objetivos estratégicos do SERCLA é analisar com mais frequência o leite de cada produtor, indo além do mínimo de quatro amostras por mês previstas na legislação que regula a classificação do leite”.

Uma situação que faz com que, atualmente, “o leite de 95% dos produtores já seja analisado mais de oito vezes por mês”. E o objetivo final é conseguir analisar todas as entregas de leite dos produtores.

Com a entrada em funcionamento do novo laboratório, foi possível passar de cerca de 981 mil análises em 2024 para 1,31 milhões em 2025. E até setembro deste ano, “já realizamos mais de 1,13 milhões de análises, mais do que em todo o ano de 2024 e prevemos fechar 2026 com cerca de 1,5 milhões, um aumento superior a 50% face a 2024”, revela Carolina Câmara. 

Para efeitos de pagamento ao produtor, o SERCLA de São Miguel analisa o teor de gordura no leite, a proteína, a contagem de células somáticas, a contagem de microrganismos totais e a presença de resíduos de antibióticos.  São ainda analisadas a ureia, os sólidos totais, a lactose e a caseína.

Conforme explica Carolina Câmara, estas são informações “muito úteis para a gestão da exploração”, uma vez que, por exemplo, a ureia ajuda a perceber se a alimentação das vacas está equilibrada e a caseína, a principal proteína do leite, “está diretamente ligada ao rendimento em queijo”, explica.

Por isso, afirma a presidente do IAMA, “bem utilizadas, estas ferramentas ajudam a maximizar a produção e a reduzir custos”.

Trabalhar no aumento dos sólidos
Mas se a qualidade higiénica e sanitária do leite produzido em São Miguel está atualmente em muito bom nível, pelo contrário, ainda é preciso continuar a trabalhar no aumento dos sólidos, ou seja, no teor de gordura e de proteína.  Até porque esta é uma solicitação do mercado neste momento.

E conforme afirma Carolina Câmara, “já se verifica evolução neste sentido”, apesar do “nosso sistema de produção assentar no pastoreio em erva fresca, o que confere mais água ao leite e torna mais difícil o controlo com precisão da alimentação das vacas. Mas existem ferramentas que permitem melhorar estes teores”. Para a presidente do IAMA, “a produção sempre respondeu às solicitações da indústria”, lembrando que em 2024, “quando a gordura e a proteína passaram a ter melhor preço, os produtores responderam positivamente”.

Pelo contrário, “quando esse incentivo é retirado, deixarão de investir e estes parâmetros irão certamente reduzir. O produtor é racional e procura sempre maximizar o seu rendimento”. Por isso, garante Carolina Câmara, “é necessário definir uma estratégia com metas claras entre a produção e a indústria” no sentido de melhorar o teor de gordura e de proteína no leite.

Mas isso, “sem se perder aquilo que nos diferencia: vacas na pastagem 365 dias por ano, o bem-estar animal e derivados lácteos de qualidade ímpar”, afirma a presidente do IAMA.

No entanto, há um aspeto que é preciso ter em conta: mais gordura e proteína beneficiam todos os laticínios e “com os mesmos litros de leite far-se-á mais queijo e mais manteiga, o que gera maior valor económico, que deverá ser distribuído por toda a cadeia”, conclui Carolina Câmara.

Inovações tecnológicas
O SERCLA de São Miguel está atualmente a desenvolver com a Associação Agrícola de São Miguel um projeto de diferenciação de células somáticas.

Conforme explica Carolina Câmara, “em vez de apenas contar as células, passamos a distinguir os seus tipos e isso permite, em conjunto com quem está no terreno, detetar a mamite mais cedo e evitar os custos que lhe estão associados, como por exemplo tratamentos e perdas de produção”.

Outro assunto que também está a ser estudado é o dos ácidos gordos do leite, sendo que aqui “o objetivo é dar ao produtor informação que o ajude a aumentar os sólidos”.

Segundo explica a presidente do IAMA, “há estudos que indicam que aumentar a concentração dos chamados ácidos gordos ‘de novo’, produzidos pela própria vaca a partir da digestão dos alimentos, pode traduzir-se em subidas na ordem das duas décimas nos teores de gordura e proteína, apenas com ajustes na alimentação dos animais”.

Por fim, Carolina Câmara revela ainda que “temos investimentos previstos para continuar a automatizar processos internos, nomeadamente a lavagem e esterilização dos frascos de amostragem”, bem como para “renovar o parque de equipamentos do laboratório”.

E quais foram os principais avanços tecnológicos do novo laboratório de classificação de leite de São Miguel, inaugurado há dois anos? “Este laboratório foi pensado a partir do percurso de cada amostra”, responde Carolina Câmara.

Quer isto dizer que “desde que chega até ser analisada, a amostra segue o caminho mais curto possível dentro do laboratório, o que encurta o tempo de análise e evita deslocações desnecessárias”.  Além disso, prossegue a presidente do IAMA, “automatizámos o processo ao longo de toda a operação, desde a recolha da amostra e controlo da cadeia de frio e análise, para que o resultado reflita com fidelidade o leite entregue.”

Carolina Câmara revela ainda que “ao longo destes últimos anos adquirimos novos equipamentos, que nos permitem evoluir na análise de novos parâmetros, como é o caso da diferenciação celular, para a deteção de mamites e mamites subclínicas e o perfil de ácidos gordos, para identificação nomeadamente dos Omegas 3 e CLA, além de melhorar a eficiência e o controlo dos já facultados em termos qualitativos e físico-químicos”.

As três melhorias
Refira-se que o novo laboratório de classificação de leite de São Miguel, trouxe três grandes melhorias ao serviço.

“A primeira é a capacidade”, explica Carolina Câmara, uma vez que “temos hoje condições de realizar muito mais análises e, assim, analisar o leite de cada produtor com maior frequência, dando um retrato mais fiel e mais justo da qualidade do leite de cada exploração”.

A segunda melhoraria foi a da automatização, porque “muitas tarefas que antes eram manuais passaram a ser realizadas por equipamentos, o que reduz o trabalho repetitivo, diminui a possibilidade de erro humano e garante que todas as amostras são tratadas exatamente da mesma forma”.

Por fim, a terceira melhoria foi a da rapidez. E conforme conclui a presidente do IAMA, “quanto mais cedo o produtor conhecer resultados sobre a qualidade do leite que entregou, mais cedo pode agir, para garantir os parâmetros e evitar penalizações no preço do leite”.

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