Inspirou-me sentir que há uma ligação entre o estado de espírito e o estado do tempo

Susana Aleixo Lopes. Artista inaugura hoje, pelas 16h00, a exposição “Whether There Be Shine or Gloom” no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas




Inaugura  hoje a exposição “Whether There Be Shine or Gloom” que reflete sobre a possibilidade de uma analogia entre o estado de tempo e o estado emocional e mental, sendo que estes culminam para dias e realidades que se agitam.
Como surge o interesse por esta temática?
Sempre me questionei sobre a associação entre cada estação, ou condição meteorológica, ao estado de espírito das pessoas. Talvez por viver numa ilha e sentir as rápidas mudanças meteorológicas, características deste local.

O tema desta exposição já era um assunto que me interessava há muito tempo e já tinha pensado em trabalhá-lo. Abordo muitas vezes os estados emocionais no meu trabalho. O que me inspirou foi sentir que há uma ligação entre o estado de espírito das pessoas e o estado do tempo. Ao relacionar a natureza e a dos seres humanos, a nível emocional e mental, surgiram-me várias questões. De que forma é que o tempo meteorológico nos afeta? Existe um sincronismo ou influência entre as diferentes estações do ano e o nosso humor? De que forma é que o nosso estado mental e emocional reflete o estado do tempo e o quê que isso reflete na sociedade? Será que certos estados em que nos encontramos connosco próprios são tão efémeros quanto a sazonalidade? No fundo, o surgir de questões como estas e outras que são possíveis de se fazer, assim como de múltiplas interpretações e pontos de vista, estão presentes nesta exposição, em que procuro fazer a analogia entre o estado do tempo e o nosso estado emocional e mental.
Em “Whether There Be Shine or Gloom” abordei mais as condições extremas que podem ser muitas vezes usadas metaforicamente em relação a estados psíquicos ou emocionais. Neste sentido, usei as tempestades precisamente como uma comparação com estados depressivos, ansiosos, de pânico e melancólicos.


O título da exposição inspira-se num poema de Jonh Keats. Como surge esta ligação com este poeta inglês do século XIX?
Gosto de poesia e da sua vertente romântica. Pelo gosto literário que tenho, foi um feliz acaso, durante as minhas pesquisas para esta exposição, cruzar-me com John Keats, poeta romântico. Interpretei o verso em que me inspirei para o título da exposição como uma boa referência ao que estava a representar neste meu trabalho. O poema chama-se “A thing of beauty”. Se repararmos no título da exposição, estamos perante uma contradição. Nos meus trabalhos, gosto sempre de comparar realidades opostas. Desta vez, a contraposição incide nos extremos: o quente e o frio, a luz e a sombra, o caos e a ordem, a adrenalina e a apatia, a pressa e a calma, o previsível e o imprevisível, a euforia e a disforia. O verso de Keats pareceu-me refletir a possibilidade da analogia que quero transmitir nas minhas peças. Na minha perspetiva, das minhas experiências e vivências, procuro demonstrar que devemos estar atentos à durabilidade e intensidade de alguns estados de mente e emoções menos positivas, para que possamos perceber que há amparo e existe forma de nos erguermos quando se ama a beleza do abismo. Resta-nos ser vigilantes sobre o nosso próprio “estado de tempo”, ter perceção do mesmo, quer haja brilho ou escuridão.


Como se materializa este interesse na exposição que vai ser inaugurada no Arquipélago?
Quando começo a trabalhar nas minhas esculturas, independentemente dos conceitos, existem sempre muitas formas de materializar o que quero expressar. Porém, nesta exposição, desde início, idealizei uma escultura em que o público pudesse entrar nela, de forma a que o que a peça representa fosse fulcral para o ambiente da exposição. A ideia surgiu-me como metáfora do isolamento a que alguns estados de tempo nos convidam. Aqui tento representar que este estado pode ter uma dualidade em relação aos pensamentos que daí podem advir e que, apesar do enevoamento, nela também podemos chegar a conclusões. A partir desta, surgiram-me outras ideias em relação a peças que demonstrassem uma relação entre condições meteorológicas tempestuosas e o estado de espírito das pessoas.

A interligação entre o estado do tempo e o nosso mental, físico e emocional inspirou-me a criar peças que estabeleçam uma interatividade imediata com o espectador. Isto levou-me a criar peças que reagem à presença do público, através do seu movimento e do seu toque.

Resumindo, estão presentes cinco peças de chão, quatro delas inspiradas nas antigas caixas de luz para leitura de cartas meteorológicas. Estas peças estabelecem a ligação entre o estado ansioso, muitas vezes manifestado fisicamente na nossa respiração, e fenómenos naturais, através de uma sobreposição de imagens. Por último, uma peça de parede que, para mim, é o reconstruir após estes processos internos que, esperançosamente, nos levarão a abraçar tanto a clareza, como a escuridão.


Esta é a segunda vez que apresenta o seu trabalho no Arquipélago. Como tem sido a relação com a instituição?
Considero o Arquipélago uma instituição muito importante para a cultura açoriana, sendo um local de relevo para a Arte Contemporânea nos Açores. É com satisfação que volto a poder marcar presença, desta vez de forma individual. É um marco importante na minha carreira ter uma exposição individual, que conta com o apoio à criação artística do Governo Regional dos Açores, num local que já me é familiar não só como artista, mas também como parte do público.

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