Celebra-se hoje, dia 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação. Nos Açores, os hábitos alimentares da população caracterizam-se pelo “consumo excessivo de alimentos e produtos não recomendados”.
As palavras são de Ivone Machado, nutricionista especialista em nutrição clínica, que deixa claro que a alimentação das pessoas é “influenciada por múltiplos fatores socioeconómicos e ambientais”.
“O rendimento familiar, o preço dos alimentos e a oferta disponível condicionam o acesso físico e financeiro a produtos saudáveis. A falta de subsídios que tornem alimentos promotores da saúde mais económicos já não afeta somente as famílias de baixos rendimentos”, indica a nutricionista.
A falta de tempo da população também afeta a qualidade da sua alimentação. Fatores como os horários de trabalho “influenciam e reduzem” o tempo disponível que as pessoas têm para “cozinhar refeições saudáveis”, recorrendo cada vez a “produtos pré-confecionados”.
Atualmente, os Açores registam a “maior prevalência de obesidade infantil no país”, atingindo 21% das crianças dos cinco aos 14 anos e 22,8% das crianças dos seis aos oito anos.
Para Ivone Machado, um dos aspetos que justifica estes dados é o facto de os ambientes escolares não serem “promotores da saúde”. “As crianças passam grande parte do dia na escola, onde consomem 30% dos seus alimentos e bebidas diários. Contudo, as máquinas de venda automática possuem produtos que são desaconselhados”, revela.
“Existe também uma lacuna na monitorização presencial, na avaliação e no cumprimento das regras das ementas escolares por parte de nutricionistas destacados nas escolas”, complementa.
Deste modo, a nutricionista considera que a permanência de “produtos alimentares não recomendados em bufetes e máquinas escolares” demonstra que o ambiente envolvente continua a “incentivar o consumo inadequado entre as novas gerações”.
O que fazer para inverter a situação?
“O combate a esta epidemia exige intervenções interdisciplinares e intersetoriais, com alterações sociais e económicas”, afirma Ivone Machado.
A nível escolar, a nutricionista indica que a realização de “visitas aleatórias e surpresa às cantinas e bares escolares”, de modo a “garantir o cumprimento real da legislação”, pode ser uma das soluções.
“Também se deve formalizar e destacar nutricionistas para as escolas de modo a assegurarem, de forma direta e contínua, a avaliação, a monitorização e a educação nutricional das crianças no próprio ambiente escolar”, prossegue.
Do ponto de vista geral, a “aplicação de mais impostos nos produtos prejudiciais” e, em simultâneo, a implementação de “subsídios económicos para tornar os alimentos promotores da saúde mais acessíveis” são medidas que Ivone Machado também defende.
“Devemos unir a educação, saúde, agricultura, proteção social, autarquias e economia sob metas comuns, transformando os planos em ações de rápida e concreta implementação”, acrescenta.
“A obesidade nos Açores não se vai resolver apenas com o esforço isolado dos nutricionistas ou com o envio de mensagens educativas às famílias. Um profissional de saúde não consegue, através de uma consulta, alterar os preços de mercado ou reduzir os índices regionais de pobreza”, deixa claro a nutricionista.
“A situação pode melhorar, mas apenas se as entidades competentes deixarem de olhar para os planos apenas no papel e passarem a monitorizar rigidamente a distância entre a promessa, a execução e o resultado real junto da população”, finalizou.
