Rogério Paulo Massa nasceu nos Arrifes, em São Miguel, e cresceu num tempo em que as brincadeiras se faziam na rua. Conta-nos que jogava à bola e que, de vez em quando, na algazarra do momento “até se partiam vidros de janelas”. Numa época em que não havia sapatilhas, para participar no grupo “andava descalço como os outros, a brincar”. Rogério Massa foi criado no campo. O pai era lavrador e costumava acompanhá-lo na vida da lavoura. “Andava sempre a fugir porque não era uma coisa que me seduzia. Ia porque tinha de ajudar”.
Esteve na escola pública dos Milagres, até à quarta classe, depois veio para Ponta Delgada, para o ciclo preparatório e liceu e, mais tarde, para a Universidade dos Açores, onde ingressou no curso de História e Filosofia. Gostava da universidade pelo “conhecimento, pelos professores, pelas conversas que as disciplinas provocavam. Não pensava em dar aulas; estava ali pela formação pessoal”. Nessa altura, já trabalhava no “Banco Comercial dos Açores, o banco de referência das famílias”, recorda com muita saudade. A banca foi a sua profissão durante décadas e nesse contexto descobriu uma das suas paixões: o teatro. No Banco Comercial dos Açores foi criado, à época, um grupo recreativo, desportivo e cultural que procurava dinamizar o convívio entre trabalhadores e promover atividades culturais. Diz que “havia ali um conjunto de pessoas com talento e experiência, algumas delas ligadas à Juventude Operária Católica (JOC)”.
Entre os nomes que recorda estão José Maria Pacheco, João Mendonça, Daniel Aguiar e Victor Melo. Este grupo começou com pequenas rábulas: cenas de humor inspiradas na própria vida bancária, social e política. Então, surgiu a revista “A Rir é que a Gente se Entende”, que teve duas edições, e encheu o Teatro Micaelense em várias sessões. Com esta revista, o grupo chegou às outras ilhas bem como à comunidade açoriana nos Estados Unidos da América e no Canadá.
Para além de representar, Rogério Massa tinha também a função de fazer a divulgação dos eventos do grupo e “recordo que escrevia pequenos textos de promoção e vinha aqui - ao Açoriano Oriental - entregar à Isilda Medeiros [já falecida], para publicação no jornal (...)”. No teatro, conta-nos que trabalhou com Zeca Medeiros, Natália Marcelino e com vários nomes ligados à cultura açoriana. Mais tarde, Armando Medeiros, seu antigo professor de português e inglês, convidou-o a participar num projeto para televisão: ‘Feliz Natal Mariana’, uma produção da RTP Açores. No elenco estavam nomes como “Lô Athayde, Maria Bifa e Gilberta Rocha”.
Confessa que “a minha vida sempre foi condimentada com esta parte da cultura. Isso ajudava, dava cor e alegria. Na minha atividade bancária, gostava sempre de estar em contacto com clientes, de fazer negócio. Toda essa relação com as pessoas dava-me vida”. No banco, além de ter exercido atividade comercial, foi ainda gerente e diretor.
Por volta do ano 2000, outra aventura surgiu no seu caminho, tendo sido convidado para a recriação histórica ‘Máquina do Tempo’, que contava, entre outros, com Maria de Deus, Armando Moreira e João Mendonça. O objetivo era reconstituir momentos históricos com rigor. Depois desta, surgiram outras. Rogério Massa lembra uma dessas reconstituições: “Em julho de 2001, comemorámos os 100 anos da visita do Rei D. Carlos I e da Rainha D. Amélia a Ponta Delgada. Decorreu no largo da Matriz e foi um trabalho que envolveu muita recolha: tivemos que recorrer a material do Museu do Traje, Museu Militar e de outras instituições (…). Sentíamos que algum público assumia como real aquele acontecimento, acabando por se envolver nesta recriação (...)”. Foi nesse mesmo ano que surgiu uma das relações mais duradouras da sua vida, o Coral de São José. “O senhor José Leite Raposo, fundador e maestro do Coral de São José, convidou-me a entrar no grupo como coralista”. Refere que a música abriu-lhe outros horizontes, “vieram concertos, artistas de fora, festivais, contactos e projetos de maior dimensão”.
Em 2007, Rogério Massa entrou para a direção da Associação. Mas foi mais tarde, após ter assistido ao Festival ao Largo, que todos os anos se realiza em Lisboa, que a ideia de envolver o Coral na produção de um festival nos mesmos moldes surgiu. Assim, nasceu o Festival ‘Música no Colégio’. A primeira edição aconteceu em 2012, no Largo do Colégio, com a bonita fachada da igreja e sem os habituais carros ali estacionados. Durante pelo menos uma semana, os carros deram lugar à música. Na apresentação do festival desse ano, Rogério Massa afirma que deixou uma frase que ainda hoje recorda: “Façamos deste largo um largo de cultura e não de estacionamento de automóveis. As pessoas aplaudiram”. Mais tarde, através do “orçamento participativo, surgiu a possibilidade de a Câmara Municipal requalificar aquele espaço”, lembrou. Foi desta forma que o Largo ganhou outra vida, sem carros. O Festival ‘Música no Colégio’ cresceu, vieram grupos, cantores - nacionais e internacionais -, bandas filarmónicas e outros tantos projetos musicais. A apresentação passou a ser bilingue, em português e inglês, e sempre com entrada gratuita. É atualmente um festival de referência nos Açores.
Fala do Coral com muito entusiasmo e percebe-se que é um apaixonado pelo Coral. A paixão traduz-se em muitas horas de ensaios, “trabalhamos todo o ano, duas a três vezes por semana, a ensaiar das 20h30 às 22h30. É muito trabalho, as coisas não saem logo à primeira. É mesmo assim, somos amadores”. Rogério Massa faz questão de falar de um outro marco do Coral de São José. Em 2017, pela primeira vez, o Coral passou a ter uma sede própria e foi também o ano em que celebrou meio século. “Foi um salto que demos. Deu-nos muito jeito ficarmos perto da Igreja de São José, porque alguns de nós animamos a Eucaristia ao domingo. É o nosso espaço, lugar de trabalho e encontro”, rematando: “A minha chegada ao Coral de São José foi sempre com esse empenho, com esse gosto”.
Atualmente está reformado da banca, mas confessa-nos que “foi complicado nos primeiros três a quatro anos”. Durante décadas, a sua vida era organizada entre o banco e tudo aquilo que acontecia fora dele. Havia uma rotina: “chegava cedo ao banco para despachar pendentes, programar atividades e contactar com clientes. Também saía do banco muito tarde, quando era preciso”. De repente, o banco deixou de fazer parte da sua rotina e então parecia que sobrava tempo. Por isso, aconselha a quem vai para a reforma pensar em algo com que possa ocupar-se.
Hoje já encontrou outro ritmo. Continua no Coral de São José, faz parte dos Órgãos Sociais da Casa do Povo dos Arrifes e do Conselho Económico da Igreja de São José, e vai colaborando, pontualmente, nas iniciativas que aparecem, “não me nego a nada que me peçam. Sou, por natureza, uma pessoa disponível”.
Rogério Massa não se considera necessariamente uma pessoa feliz. Prefere usar uma frase de Amália Rodrigues: “Não sou feliz, mas sou uma pessoa bem-disposta”. A finalizar fala-nos dos sete anos em que foi romeiro, no rancho da Covoada. Conta que “fiz sete anos de romaria (...). Foi muito bonito, foi uma experiência de penitência, de reflexão e amizade, porque há momentos para tudo, não é só rezar.”, sublinhando que “estamos aqui para ajudar. O que se leva deste mundo é esta maneira de ser, de estar”.
