Luta democrática leva portugueses que vivem em Hong Kong a valorizar mais o direito ao voto

Luta democrática leva portugueses que vivem em Hong Kong a valorizar mais o direito ao voto

 

Inês Santinho Gonçalves/ Lusa   Nacional   30 de Set de 2014, 11:02

A luta pelo sufrágio universal em Hong Kong tem inspirado portugueses a residir no território que admitem valorizar mais o "voto popular" depois de acompanharem os protestos na cidade.

 

Gonçalo Frey-Ramos vive na região administrativa chinesa há mais de oito anos e tem assistido a um escalar da luta pela escolha direta do chefe do Executivo: "Já oiço falar do sufrágio universal desde que cheguei, mas na altura não era uma coisa que as pessoas me dissessem que as preocupava muito”.

No entanto, “muito mudou desde então, principalmente com a chegada do novo chefe do Executivo, há muito mais apoio [ao sufrágio universal]", conta à Agência Lusa.

Apoiante do movimento, apesar de ter estado no local das manifestações apenas de passagem, o consultor considera que "toda a gente deve poder votar" e defende que "o enquadramento com a China devia ter sido resolvido de outra forma".

"Há muita coisa que só damos valor quando sentimos falta", comenta, explicando que assim que passou a ser residente permanente de Hong Kong (ao fim de sete anos) se recenseou para poder votar nas eleições locais - apesar de a escolha do chefe do Executivo estar restrita a um colégio de 1200 pessoas, os residentes podem votar para os representantes dos Conselhos Distritais e deputados.

"A partir do momento que sou residente permanente, tenho esse direito e dever", diz, admitindo que estes protestos levam a uma maior valorização do direito ao voto: "Isto faz-nos pensar".

O sentimento é partilhado pelo criativo João Seabra, a residir em Hong Kong há um ano: "Tenho 33 anos e acho que a minha geração, que não viveu o 25 de abril, sente que o voto é algo adquirido, mas sempre contactei com realidades em que isso não acontece”.

“ Temos a sensação que [o sufrágio universal] é a norma, mas não é, e em Hong Kong as pessoas lutam porque sentem que devia ser um direito", diz.

Por agora, João Seabra não pode votar, mas espera vir a ter esse direito no futuro.

Nesse momento, “estarei ainda mais por dentro [das notícias] e terei todo o gosto em participar", afirma.

João Seabra esteve em vários pontos da cidade durante a noite de segunda-feira e testemunhou "um ambiente de calma e harmonia".

"As pessoas estão a manifestar-se porque amam a cidade. Continuam a ir para os seus trabalhos porque não querem prejudicar a cidade. Há um grande sentido de entreajuda e organização, o povo tomou conta do movimento", descreve.

Para o jovem português, este movimento vem comprovar que o território está preparado para escolher diretamente o seu líder.

"Tenho um grande respeito pelas pessoas de Hong Kong, estão mais do que preparadas para a democracia. Venho de um país democrático e percebo perfeitamente a frustração que sentem, estão a ser encostados a um canto pela China", comenta.

Hoje à noite, João Seabra vai voltar às ruas para continuar a "registar um momento histórico" e juntar-se às pessoas de Hong Kong, até porque acredita que os protestos vão engrossar com a aproximação do Dia Nacional da China, assinalado na quarta-feira.

O movimento em Hong Kong surge em contestação à decisão de Pequim de restringir o sufrágio universal pleno.

A 31 de agosto, a Assembleia Nacional Popular decidiu que os aspirantes ao cargo vão precisar de reunir o apoio de mais de 50% de um comité de nomeação para concorrer à eleição e que apenas dois ou três serão então selecionados.

Ou seja, a população de Hong Kong exercerá o seu direito de voto mas só depois daquilo que os democratas designam de ‘triagem’.

A China tinha prometido à população de Hong Kong, cujo chefe do Governo é escolhido por um colégio eleitoral composto atualmente por cerca de 1.200 pessoas, que seria capaz de escolher o seu líder em 2017.



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