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Descrédito da política apontado como razão de abstenção recorde nas Feteiras

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O "descrédito do sistema político" é uma das causas apontadas pelo presidente de Junta de Freguesia das Feteiras, Ponta Delgada, para justificar a abstenção mais alta registada nas eleições regionais dos Açores (76.06%), no domingo.
 

João Calos Silva disse à agência Lusa que os habitantes das Feteiras estão "completamente desinteressados", porque "deixaram de acreditar na classe política", face ao volume de promessas "feitas e não cumpridas", tal como acontece em toda a região e a nível nacional.

"Tentei mobilizar as pessoas para exercerem o seu direito e dever cívicos, percorrendo toda a freguesia. Acho que não há razões para isso, mas as pessoas não votam porque os políticos não cumprem com a sua palavra", frisou o autarca.

O presidente da Junta defendeu a necessidade de se desenvolverem iniciativas para combater este fenómeno, principalmente junto dos mais jovens, que são os mais desmobilizados, salvaguardando que são os idosos que votam.

Os habitantes desta freguesia rural, localizada a cerca de 20 quilómetros da cidade de Ponta Delgada, na costa sul, manifestaram a sua surpresa com o valor da abstenção registado.

Nas eleições legislativas regionais de 2012 estavam inscritos nas Feteiras 1.405 eleitores e a abstenção atingiu os 58,4 por cento, valor em harmonia com o registado na região.

Com a maioria dos locais concentrados nos cafés na periferia do largo da igreja local, Carlos Resendes, conhecido na localidade como “Chico”, de 43 anos, foi um dos 1.391 eleitores inscritos nas Feteiras que exerceu o direito de voto neste domingo, assegurando à Lusa que nunca abdicou do voto, “mesmo que seja em branco”, lamentando a "posição embaraçosa" da freguesia.

Contrariamente a este habitante das Feteiras, José António Resendes, de 52 anos, que optou por engrossar a abstenção, preferiu sublinhar que “eles [políticos] prometem, prometem e nada fazem”.

José António Resendes está convicto que quando falecerem os mais idosos da freguesia a abstenção vai ser maior, porque “não se faz nada pelos jovens”, designadamente no combate ao desemprego.

José Carlos, funcionário público, cujo local de trabalho se situa em Ponta Delgada, como o da maior parte dos locais em idade ativa, referiu que só votou porque foi tomar café, tendo manifestado o seu descontentamento com o facto de “não ser aumentado há 19 anos".

No posto de saúde das Feteiras concentravam-se, entretanto, várias mulheres da freguesia, à espera de serem atendidas, como era o caso de Maria Pacheco, de 56 anos, mãe de sete filhos, que sustentou que os políticos deixaram de responder aos problemas das pessoas, lamentando que haja “tanta gente no desemprego”.

Ana Pereira, de 53 anos, tem a seu cargo um filho de 32 anos, desempregado, e diz que não votou porque, entre outras razões, se "está a dar aos jovens programas ocupacionais e não emprego real”.

Na freguesia, com ruas praticamente desertas, vive também José Clemente, de 43 anos, que, apesar de lamentar o valor da abstenção, está convicto de que foi um “mero acidente” [a elevada taxa de abstenção], porque os valores nas Feteiras, em praticamente todos os atos eleitorais, são próximos da percentagem regional.

Maria Ponte, de 81 anos, optou por não votar e manifesta o seu descontentamento, porque “as reformas não dão para nada”, enquanto Carlos Corvelo, de 61 anos, que exerceu o direito de voto, disse acreditar que “as pessoas estão a afastar-se das mesas de voto porque se faz muito promessa e não se cumpre”.