Concentração da propriedade da terra na ilha de S. Miguel é "sui generis"

Concentração da propriedade da terra na ilha de S. Miguel é "sui generis"

 

AO/Lusa   Regional   16 de Nov de 2014, 09:51

A concentração da propriedade da terra na ilha de S. Miguel, nos Açores, é "sui generis" no conjunto do arquipélago e moldou, ao longo de séculos, a maneira de ser dos micaelenses, defende a historiadora Susana Goulart Costa.

 

“O facto de S. Miguel ser extremamente fértil dinamizou e atraiu muita gente e isso permitiu àqueles que tinham alguma capacidade económica e, acima de tudo, tinham algum benefício ou privilégio junto da coroa, ir acumulando propriedades”, afirmou Susana Goulart Costa, em declarações à agência Lusa, acrescentando que nas restantes ilhas a propriedade da terra é mais diversificada.

Nas últimas semanas, habitantes de várias freguesias rurais do concelho de Ponta Delgada receberam cartas dos herdeiros do grande terra-tenente Caetano Andrade de Albuquerque (1844-1900) a comunicar atualizações de rendas ou a denunciar contratos de arrendamento de terrenos agrícolas, alguns deles que passaram de geração em geração, dentro das famílias, o que está a gerar uma onda de preocupação.

No caso específico das Sete Cidades, local emblemático e turístico devido à exuberâncias das suas lagoas, esta situação coloca em risco os 32 produtores de leite, que não sua maioria montaram explorações agrícolas em terrenos arrendados à família Andrade de Albuquerque, dona da maioria das terras na zona e mesmo do chão onde foram construídas grande parte das casas da freguesia.

A historiadora e docente na Universidade dos Açores Susana Goulart Costa adiantou que antes da família de Caetano Andrade de Albuquerque, a maior parte dos terrenos nas Sete Cidades pertenceram a conventos de freiras em Ponta Delgada, mas que a partir de 1830 foram passando para a posse do Estado e de alguns particulares “endinheirados e com privilégios”.

Segundo explicou, apesar de afastada de Ponta Delgada, a freguesia das Sete Cidades possui um grande potencial ao nível hídrico e terrenos férteis, o que “desde sempre despertou muito interesse” por esta zona da ilha.

“O abastecimento de água a Ponta Delgada vinha muito das ribeiras das Sete Cidades, da lagoa das empadadas, canário e aquelas lagoas todas que conhecemos como pontos turísticos”, referiu a historiadora.

Ao contrário de S. Miguel, as restantes ilhas açorianas atraíram “povoadores com menor capacidade económica, os terrenos eram menos férteis e a terra difícil de domar”, o que facilitou que a propriedade dos terrenos fosse mais diversificada.

Para Susana Goulart Costa, a concentração da propriedade da terra na ilha de S. Miguel, ao longo de séculos, acabou por moldar a maneira de ser dos micaelenses, criando “uma dependência clara, uma subserviência muito grande” perante uma ou duas famílias, cujos membros casavam entre si e muitos “nem sequer habitavam aqui durante o ano, pois estavam em Lisboa ou viajando pela Europa e tinham na ilha os seus representantes para recolher rendas”.

Na Terceira, a segunda ilha com maior concentração de propriedade de terrenos na região, a questão não se coloca com tanta força, no entender da investigadora, porque historicamente a ilha viveu muitos séculos voltada para a baia de Angra, para o Atlântico e para o comércio, sendo pequena a economia agrícola de subsistência em comparação com S. Miguel.

“S. Miguel acaba por ser de facto uma situação sui generis no conjunto do arquipélago”, constatou.

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