'Sonhador' Rodrigo Pimentel tornou-se ativista para que o deixem ficar na América

'Sonhador' Rodrigo Pimentel tornou-se ativista para que o deixem ficar na América

 

Lusa/AO online   Regional   5 de Fev de 2018, 15:33

Rodrigo Pimentel nasceu nos Açores há 20 anos, mas mudou-se em bebé para os EUA. Hoje é ativista pelos 'dreamers', jovens que, como ele, foram levados para os EUA em criança e agora correm o risco de ser deportados.

O jovem, que nasceu em São Miguel e emigrou com apenas 10 meses, está protegido pelo Deferred Action Childhood Arrival (DACA) desde 2013, mas o presidente Donald Trump terminou o programa e o Congresso tem apenas até março para encontrar uma solução legislativa.

"O DACA permitiu-me ter uma identidade. Pude, finalmente, ter carta de condução, trabalhar de forma legal, e ingressar no ensino superior", explicou Rodrigo à agência Lusa.

Neste momento, o programa protege perto de 800 mil pessoas, conhecidas por 'dreamers' (sonhadores). Cerca de 520 são portugueses e correm o risco de ser deportados se não for encontrada uma solução.

Rodrigo cresceu em East Providence, no estado de Rhode Island, ouvindo os pais dizendo que eram ilegais, mas sem perceber o que significava.

Foi apenas quando chegou à adolescência, e viu "os amigos a tirarem a carta, planearem as suas carreiras", que percebeu que não tinha os mesmos direitos.

Em 2012, a iniciativa de Barack Obama permitiu-lhe tirar a carta e entrar na universidade, onde estuda ciência computacional, mas “não [lhe] deu paz de espírito".

Rodrigo sabia que a ação executiva de Obama não tinha a força de lei e não conduzia a cidadania (apenas o Congresso tem poder legislativo), e que outro presidente poderia revogar o programa.

Foi isso que Donald Trump prometeu fazer enquanto candidato à Presidência dos EUA e foi isso que fez, já Presidente, em setembro.

"Sem ação, 800 mil 'dreamers', incluindo eu, vão perder os seus trabalhos e o seu lugar na América. Vou ser forçado de novo para as sombras da incerteza. Vim para os EUA com dez meses. A América é a minha casa", diz.

No último ano e meio, Rodrigo deu entrevistas, falou com políticos, escreveu cartas a decisores e publicou artigos de opinião. As suas palavras foram publicadas no diário britânico "The Guardian" e na televisão "Al Jazeera".

Há duas semanas, viajou com outros 120 ‘dreamers’ de todo o país até Washington para conversar com congressistas e senadores de ambos os partidos.

Rodrigo sabe que tornar público o seu estatuto pode transformá-lo num alvo. Conhece as histórias de ativistas que foram detidos e deportados pelas forças de imigração americanas (ICE) no último ano, mas decidiu falar.

"Percebi que, se não fosse eu, ninguém mais faria o trabalho para criar a mudança social e política que é necessária para continuarmos nos EUA. Mas, para vencermos, temos de ir além do mero ativismo", diz.

Um dos seus dizeres preferidos é: “Não te queixes, organiza-te", explica.

Desde a eleição de Trump que estes jovens estão num limbo. A sua situação atingiu um ponto crucial em janeiro, quando o partido Democrata recusou aprovar um orçamento temporário, forcando o fecho do Governo durante três dias, até ser encontrada solução para os 'dreamers'.

O partido acabou por aprovar o orçamento quando os republicanos prometeram um debate para fevereiro.

Rodrigo, que é coordenador de imigração para uma organização de democratas progressistas em Rhode Island, discorda da decisão do seu partido.

"Por causa desta cedência, estamos a começar uma negociação em que o Presidente Trump e Stephen Miller [principal conselheiro na área da imigração] exploram uma crise criada por eles. Os 'dreamers' tornaram-se reféns para que a Casa Branca possa cortar a imigração legal em 50%", diz.

Rodrigo renovou recentemente a sua participação no programa, por isso esta protegido até 2019, mas segundo um estudo do Center for American Progress (CAP), cerca de 122 pessoas perdem esta proteção todos os dias.

Rodrigo diz que existem até motivos eleitorais e económicos para aprovar uma lei.

As sondagens mostram que cerca de 80% dos americanos apoiam a medida e, segundo um estudo do Immigrant Legal Resource Center, o fim do programa provocaria uma redução de 26,4 mil milhões de dólares (cerca de 33 milhões de euros) nas contribuições para a Segurança Social e Medicare (seguro de saúde público para os mais desfavorecidos) numa década.

No seu discurso do Estado da União, na terça-feira à noite, Trump tornou a mostrar-se disponível para negociar, pedindo em troca a construção de um muro na fronteira com o México, o fim da lotaria de vistos e da imigração por reunificação familiar.

Alguns destes pontos são considerados inaceitáveis pelos democratas, mas Rodrigo ainda acredita que uma proposta com apoio em ambos os partidos possa ter sucesso.

"Espero que, com toda esta pressão, o Congresso atue para proteger os 'dreamers' da deportação", diz.

Se estas tentativas falharem, o português teme que ele e muitos destes jovens acabem por ser enviados para países que não conhecem.

"Não tenho qualquer memória de Portugal. Se for forçado a regressar, serei um turista. Para participares na vida de um país, precisas entender a cultura, a situação política, as normas sociais. Na melhor das hipóteses, seria um choque cultural. Na pior, seria perder tudo aquilo por que trabalhei tanto: a minha carreira, a minha família, os meus amigos, ligações que não podes substituir nunca".



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