Romarias em São Miguel tocam centenas de pessoas em cada freguesia

Romarias em São Miguel tocam centenas de pessoas em cada freguesia

 

AO/Lusa   Regional   21 de Fev de 2015, 10:28

As tradicionais romarias pascais de São Miguel assumem "uma dimensão comunitária" e "tocam" centenas de pessoas que se unem em várias freguesias da maior ilha açoriana para disponibilizar meios para a pernoita e a alimentação dos romeiros.

 

"Esta é uma vivência que envolve muita gente. Tem uma dimensão comunitária que vai para além da própria romaria que vai na estrada. Tem uma partilha, uma generosidade, em paralelo com a vivência penitencial de cada romeiro", afirmou o padre Nuno Maiato, diretor espiritual do Movimento de Romeiros de São Miguel, em declarações à Lusa, frisando que um número muito grande de pessoas são tocadas pelas romarias, cujos primeiros 11 ranchos saíram hoje.

Este ano, percorrem as estradas de São Miguel 55 grupos de romeiros, dois dos quais oriundos do Canadá, estimando-se que as romarias integrem cerca de 2.500 pessoas, numa das principais manifestações de religiosidade popular da ilha.

Estes romeiros percorrem quilómetros e quilómetros a pé durante uma semana, trajando um xaile, lenço, saco para alimentos, bordão e terço, entoando cânticos e rezando.

“É certo que cada homem que vai de romeiro procura um encontro pessoal com Deus, mas é feito com os outros. As pessoas confiam as suas orações aos romeiros. As pessoas têm um gesto de acolher os outros na sua fragilidade e cansaço”, frisou Nuno Maiato.

Segundo o padre, dificilmente alguém que vai de romeiro num ano não volta no ano a seguir, sublinhando que a maioria das pessoas que faz esta experiencia só deixa de ir novamente "por razões muito fortes”.

“O impulso pode ser uma promessa. Apenas curiosidade. Querer uma experiência nova, uma experiência de fé. É uma oportunidade que a pessoa tem de se renovar através do sacrifício, da oração, da fraternidade”, afirmou, acrescentando que se criam laços entre os romeiros.

O padre disse ainda acreditar que as romarias "não se vão perder no tempo", salientando "a forte carga tradicional que têm na ilha de São Miguel", nos Açores.

O presidente do Grupo Coordenador do Movimento de Romeiros de São Miguel, João Carlos Leite, disse à Lusa que "todos os anos há cada vez mais pessoas que integram as romarias", incluindo muitos jovens.

“Há cerca de 30 anos eram metade dos ranchos que existem atualmente, mas muitas localidades foram constituindo os seus ranchos”, afirmou, frisando também que a tradição não se resume ao percurso, mas apela "ao espírito de entre-ajuda" junto da comunidade, que se une em cada freguesia para disponibilizar locais de dormida e preparar a alimentação dos romeiros.

“Alguns romeiros ficam em casas de particulares, mas sempre que tal não é possível, os ranchos pernoitam em salões paroquiais”, acrescentou.

João Carlos Leite salientou também que quem vai uma vez nestas romarias, onde só homens podem participar, tem a tendência de voltar ano após ano e há quem já tenha feito 25 romarias ou até mais.

“A maior parte dos romeiros sentem esta necessidade de fazer uma paragem na sua vida, de recarregar baterias, de fazer uma paragem na sua vida e já é uma necessidade emocional e psíquica que sentem”, referiu.

Estas romarias quaresmais, segundo a tradição, tiveram origem na sequência de terramotos e erupções vulcânicas ocorridas no século XVI na ilha, que arrasaram Vila Franca do Campo e causaram grande destruição na Ribeira Grande.

Os ranchos são organizados e devem cumprir um percurso, sempre com mar pela esquerda, passando pelo maior número possível de igrejas e ermidas de S. Miguel.

Os primeiros ranchos saem para a estrada no fim-de-semana a seguir à quarta-feira de cinzas e os últimos regressem às suas localidades na quinta-feira santa.

 


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