Reconstrução de Aceh ajuda a pôr em risco património mundial

Reconstrução de Aceh ajuda a pôr em risco património mundial

 

Lusa/AO Online   Internacional   26 de Dez de 2014, 07:45

A reconstrução de Aceh após o tsunami de 2004 motivou a extração ilegal de madeira na floresta tropical da Samatra, que está agora em risco de perder o estatuto de património mundial.

 

A floresta tropical da Samatra, composta pelos parques nacionais de Gunung Leuser, Kerinci Seblat e Bukit Barisan Selatan, foi classificada como património mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 2004, mas bastaram sete anos para essa distinção ficar em risco.

“O tsunami afetou claramente a condição da floresta em Aceh. Primeiro, afetou a floresta de mangues na costa de Aceh e, em segundo, afetou a exigência de madeira para a reconstrução”, disse Dede Suhendra, responsável do Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla inglesa) na região do Norte da Samatra.

O maremoto de 26 de dezembro de 2004, que fez 226 mil vítimas numa dezena de países, destruiu grande parte da mancha verde de mangais junto à costa, sendo que estas árvores funcionaram como proteção.

Após o maremoto ter varrido cerca de 130 mil casas e motivado uma demanda insaciável de madeira para a reconstrução, os sobreviventes do tsunami e antigos combatentes do Movimento Aceh Livre (GAM, na sigla indonésia) sem emprego aproveitaram para vender madeira ilegal da floresta tropical da Samatra.

Antes de tsunami, o conflito de 29 anos entre o GAM e o governo indonésio, que culminou com um acordo de paz firmado em 2005, fez da floresta da floresta da província autónoma de Aceh uma das melhores conservadas da Samatra, porque os combatentes escondiam-se na mancha verde.

Kuntoro Mangkusubroto, ex-diretor da Agência de Reabilitação e Reconstrução (BRR, na sigla indonésia) de Aceh e Nias, lembrou que, após ter sido noticiado que a extração ilegal de madeira estava a ser usada na reconstrução de Aceh, um dos doadores “parou imediatamente a doação”, o que exigiu medidas imediatas.

O responsável do organismo extinto em 2009 esclareceu que a BRR passou a adquirir madeira da Nova Zelândia e da Alemanha e de outras ilhas indonésias e pediu ajuda internacional para “verificar todas as madeiras”.

Além disso, para evitar recorrer a fontes ilícitas, muitas agências de ajuda pós-tsunami reviram os seus projetos, recorrendo a outros materiais ou atrasando a construção.

Segundo Mirna Asnur, responsável pela área da advocacia e pelas campanhas da Walhi - Fórum Indonésio para o Ambiente em Aceh, hoje em dia a floresta de Aceh está tão em perigo como outras áreas florestais da Samatra, “devido à regulação governamental” na região autónoma.

“O negócio ilegal de habitantes locais para a construção de casas após o tsunami” não foi tão significativo “ comparando com a desflorestação feita pela indústria e pelo investimento”, referiu, apontando o dedo às indústrias de mineração e óleo de palma, matéria-prima para uma boa parte dos produtos usados diariamente em todo o mundo, como chocolates ou cosméticos.

Na sequência do maremoto, acrescentou, “o governo de Aceh fez uma construção maciça de estradas, mesmo na área florestal”.

A Walhi espera agora pela análise do Supremo Tribunal Indonésio a algumas das leis que a organização acredita contribuírem para a desflorestação em Aceh.

Na mesma linha, Dede Suhendra, da WWF, advertiu que se as autoridades da ilha da Samatra e o governo indonésio “não planearem proteger as espécies em risco”, como o tigre-da-samatra ou o orangotango local, “nos próximos dez a 20 anos iremos perdê-las”.

Nos últimos 12 anos, a Indonésia perdeu cerca de 60.000 km2 de floresta tropical, superando, pela primeira vez, o Brasil na taxa de desflorestamento.

A reserva florestal da Indonésia é a terceira maior do mundo, depois da Amazónia e da Bacia do Congo, mas cerca de 40 por cento foi destruída por madeireiros ilegais nos últimos 50 anos.


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