Portugueses em França sentem a crise, mas pouco

Portugueses em França sentem a crise, mas pouco

 

LUSA/AOnline   Internacional   5 de Ago de 2012, 14:37

Enquanto França está a braços com um aumento histórico do desemprego e com uma dívida pública "esmagadora", anunciando aumento de impostos e uma receita de rigor, três emigrantes portugueses em Paris dizem que sentem a crise, mas pouco.

O Governo, nomeado em junho pelo Presidente François Hollande, reviu em alta os valores da dívida pública (deverá atingir em 2013 90,6 por cento do PIB, um valor recorde, e que o primeiro-ministro considerou ter um peso “esmagador”).

O desemprego subiu (foi de 10 por cento no primeiro trimestre do ano). E o Tribunal de Contas francês anunciou que seriam precisos, ainda este ano, entre seis mil milhões e 10 mil milhões de euros – entre novas receitas fiscais e economias suplementares – para conseguir reduzir o défice dos 5,2 por cento do PIB em 2011 para os 4,5 por cento em 2012.

Na edição de quinta-feira, a revista “Le Point”, de direita, faz capa com uma França “a dançar em cima de um vulcão”, referindo-se à crise na zona euro, e escreve que o Presidente está preocupado com a Espanha e com a Itália, por saber que, sendo embora a segunda economia da zona euro, Paris não passará incólume à eventual necessidade de dois resgates de peso.

Apesar deste cenário, entre os portugueses que vivem e trabalham na capital francesa, a crise, garantem, sente-se pouco.

António Andrade, de 65 anos, natural da Ribeira Brava, na Madeira, está há 40 anos em França. Há 16 que é proprietário de um restaurante no IX bairro de Paris: “Não ficamos cansados de esperar [por clientes], ficamos cansados de trabalhar. Aqui abrimos a porta e trabalhamos sempre”, conta à Lusa.

O “Paris Madeira” serve cozinha portuguesa e francesa das 12:00 às 23:30, sem pausas. O proprietário explica que “os turistas não têm hora para comer” e que o restaurante tem que estar “à disposição do cliente”.

A crise, diz, sente-se na procura por parte dos turistas, não entre a clientela francesa. E contorna-se, acredita, apostando na qualidade: “Temos que exigir o melhor do nosso pessoal, para o cliente ser mais bem servido e regressar”.

Jorge Sousa Pimentel, de 36 anos, é taxista na capital francesa há seis anos, três deles por conta própria. Concorda com António Andrade. Os parisienses “não têm falta de dinheiro”. Têm antes “medo da crise” e, por isso, “poupam mais".

Este taxista reconhece que tem “um pouco menos de trabalho”, mas atribui a quebra às “mudanças de hábitos” dos clientes: “Agora as pessoas pensam mais antes de apanharem um táxi. Para trajetos pequenos vão mais facilmente de metro, ou nas bicicletas [que fazem parte da rede de transportes públicos]”, afirma.

“A câmara lançou também, há seis meses, um projeto de aluguer de carros elétricos. Isso tirou-nos algum trabalho”, acrescenta.

Também Telmo Teixeira, de 31 anos, 11 deles passados em França, acredita que “uma pessoa que queira trabalhar e que tenha vontade de ganhar dinheiro pode ganhar dinheiro”.

Este ‘marketeer’ diz que “a crise não está tão presente quanto isso” no seu trabalho. A empresa francesa para a qual trabalha cresceu 120 por cento no último ano. Até no mercado europeu o negócio “está a correr bem”.

Este filho de emigrantes não se surpreende que assim seja. Foi por isso – porque “sabia que as oportunidades em França não eram as mesmas do que em Portugal” – que terminou o secundário em Coimbra e rumou a Paris para concluir os estudos e “correr atrás das oportunidades”.


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