Portugal acolhe 5.873 médicos e enfermeiros estrangeiros


 

Lusa/Ao online   Nacional   11 de Dez de 2007, 07:13

O destino de José Estevez Torres assemelha-se ao do enfermeiro panamenho Izidoro Asprilla Aldeano, que "conheceu" Portugal no Brasil, onde tirou o curso de enfermagem.

  
O destino de José Estevez Torres assemelha-se ao do enfermeiro panamenho Izidoro Asprilla Aldeano, que "conheceu" Portugal no Brasil, onde tirou o curso de enfermagem.

    Portugal acolhe 5.873 profissionais de saúde estrangeiros, dos quais 3.654 são médicos e 2.223 enfermeiros, segundo dados das respectivas ordens.

    Antes de vir para Portugal, em 1996, José Estevez Torres esteve na Guiné-Bissau, onde “operou muitos portugueses” e fez amizade com alguns deles que lhe deram a conhecer o país.

    "Fiquei encantado", disse à Lusa o médico cubano, que exerce desde 1999 no Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), onde trabalham 89 médicos e 122 enfermeiros imigrantes.

    Os primeiros tempos não foram fáceis. Além da barreira da língua, era preciso fazer o reconhecimento das habilitações, “um processo moroso, burocrático, caro e difícil” que se prolongou por dois anos.

    Para conseguir sobreviver durante esse tempo, o cirurgião ia trabalhar para hospitais em Espanha.

    Foram tempos “muito difíceis" para Estevez Torres, mas agora "tudo passou": vive com uma portuguesa, tem dois filhos e já meteu os papéis para obter a nacionalidade portuguesa.

    Natural do Panamá, Izidoro Asprilla Aldeano decidiu vir para Portugal há oito anos à procura da estabilidade profissional.

    “No Brasil descobri Portugal”, contou o enfermeiro, lembrando que ouvia as pessoas a falar dos Descobrimentos, de Pedro Álvares Cabral e percebeu que “afinal não foram os espanhóis que descobriram o Brasil, mas sim os portugueses”

    Aldeano ficou com curiosidade de conhecer o país dos grandes navegadores e essa oportunidade surgiu num congresso de enfermagem, onde esteve presente o Hospital Amadora-Sintra que tinha na altura falta de enfermeiros.

    “Mandei o currículo e vim colado com 25 enfermeiros brasileiros”, contou, salientando que foi “um atractivo poder trabalhar na Europa”.

    Fazendo um balanço da sua “caminhada” em terras portuguesas, Izidoro Aldeano diz que atingiu os objectivos de conseguir “melhorar de vida” e, por outro lado, “ajudar a crescer o país”.

    Mais de metade (1237) dos enfermeiros estrangeiros em Portugal exerce funções na região de Lisboa e Vale do Tejo.

    Segundo dados da Ordem dos Enfermeiros, relativos a Abril, 313 profissionais trabalham na região Centro, 282 no Algarve, 237 na região Norte, 68 no Alentejo, 26 nos Açores e quatro na Madeira.

    A maioria dos enfermeiros (1386) exerce funções nos hospitais, enquanto 197 trabalham em centros de saúde e 84 em estabelecimentos particulares.

    Os enfermeiros espanhóis são a maioria (1487), seguindo-se os brasileiros (186), angolanos (71), guineenses (57) e alemães (40).

    Portugal também foi o país eleito por 3.654 clínicos estrangeiros, que representam 9,5 por cento do total de profissionais em exercício (38.410), segundo dados da Ordem do Médicos referentes a este mês.

    A maioria dos médicos estrangeiros (2.337) é oriunda de países da União Europeia, seguindo-se o Brasil (520), os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (444), países europeus (218), da América do Sul (95), da América do Norte (18), da Ásia (14), de países africanos (6) e da Austrália (2).

    Mais de 200 médicos e enfermeiros imigrantes trabalham no Hospital Fernando Fonseca, o estabelecimento que reúne o maior número de profissionais estrangeiros.

    Alguns deles conseguiram a sua equivalência através de um projecto de 2005 financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e com o apoio do Serviço Jesuíta de Apoio aos Refugiados.

    Fazendo um balanço dos dois anos de integração dos profissionais, o enfermeiro director do Hospital Fernando Fonseca, João Vieira, afirma que “tem havido uma evolução dos profissionais e há casos de sucesso”.

    As maiores dificuldades sentidas no início prendiam-se com as diferenças existentes entre a enfermagem praticada nos seus países de origem.

    “Inicialmente tinham dificuldades na execução de técnicas de enfermagem, por desconhecimento do material clínico, da farmacologia e no domínio da Língua Portuguesa”, sublinhou.

    João Vieira fez um retrato dos enfermeiros oriundos dos países de Leste, de Espanha e do Brasil.

    No caso dos brasileiros, a Língua Portuguesa foi um elemento facilitador de integração, mas as deficiências ao nível técnico foram um dos aspectos negativos a resolver.

    “Os brasileiros estão virados para a investigação e tinham muitas carências na parte prática, porque no Brasil esse trabalho é feito pelos auxiliares”, explicou.

    Apesar das técnicas espanholas serem idênticas às portuguesas, os enfermeiros espanhóis revelavam dificuldade na língua.

    Já os profissionais dos países de Leste conseguiram ultrapassar a barreira da língua, mas tinham muita dificuldade na parte técnica e em tomar decisões, uma vez que nesses países o decisor é sempre o médico.

    O processo de integração destes profissionais é feita por enfermeiros residentes, um processo que João Vieira considera “muito desgastante e frustrante” devido à rotatividade dos trabalhadores estrangeiros.

    “Para os profissionais do hospital que ficam é desgastante. O facto de estar sempre começar de novo desmotiva e os serviços não crescem”, afirmou.

    Para João Vieira, há uma caminhada muito maior a ser feita a nível de integração e desenvolvimento de competências adquiridas.

   

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