Os desassombros de Natália Correia sobre o Verão Quente em nova edição com inéditos


 

Lusa/AO Online   Regional   24 de Nov de 2015, 05:13

Do brado "Ó Liberdade, Brancura do Relâmpago", suscitado pelo 25 de Abril, ao "momento sombrio" das vésperas do 25 de novembro de 1975, Natália Correia registou essa época num diário e em crónicas para jornais, agora reunidos em livro.

 

A obra "Não Percas a Rosa/Ó Liberdade, Brancura do Relâmpago" junta inéditos, as crónicas publicadas em jornais da época e esse diário, iniciado a 25 de Abril de 1974, que Natália Correia prosseguiu para lá do 25 de novembro do ano seguinte.

A publicação é agora da responsabilidade da editora e livraria Ponto de Fuga, em Lisboa, e o lançamento é feito hoje, no Botequim, o antigo bar de Natália Coreia, ao largo da Graça, na capital portuguesa.

Insubmissa, controversa, silenciada pelo regime fascista, Natália Correia voltou a ser censurada na democracia saída do 25 de Abril, quando trabalhadores do vespertino A Capital proibiram a publicação das suas cónicas, em julho de 1974.

Na altura, o jornal era dirigido por David Mourão-Ferreira, que contratava para colunistas outros conhecidos intelectuais de Lisboa: Alexandre O’Neill, António Alçada Baptista, Jacinto do Prado Coelho, Luiz Francisco Rebello e José Barata Moura. Juntou-se-lhes Natália Correia, poetisa, libertária e desbocada.

Nos jornais como A Capital, A Luta e Portugal Socialista, Natália vai propor uma interpretação dos militares de Abril sob o prisma da psicanálise, e acusá-los de imitações de “Machéis e Cabrais", afetados por “penetrações doutrinantes no seio das tropas portuguesas que combatiam no Ultramar”.

Nas palavras da poetisa, a reforma Agrária é um “roubo de terras”, Otelo, “um grotesco parasita”, e a autora afirma-se como alguém “que ousa dizer umas verdades ao canonizado MFA”.

Quando olhava à sua volta, porém, para muitos dos que bradavam contra a revolução, o que via Natália?

“Quem me havia de dizer que meia dúzia de banalidades inconformistas, proferidas nesta aldeia de castrados pelo terrorismo verbal que reduz a perversão reaccionária a liberdade de criticar, me transformaria numa Nossa Senhora dos cobardes!", escreveu.

O livro "Não Percas a Rosa/Ó Liberdade, Brancura do Relâmpago" surge quase 40 anos após a edição original do diário ("Não percas a rosa"), pelas Publicações D. Quixote (1978).

As crónicas, reunidas sob o título "Ó Liberdade, Brancura do Relâmpago", vão de 15 de julho de 1974 a 22 de março de 1976, e o atual volume soma uma dúzia de inéditos, não datados, mas referentes a acontecimentos da época.

O diário também recupera inéditos, num conjunto que se estende até 20 de dezembro de 1975, e ao qual a escritora regressa em 1978, em vésperas da primeira edição em livro: "Releio este diário passados três anos sobre os dias frementes que nele se encadeiam (...) Sim, a festa revolucionária foi a revelação súbita do trágico".

A conjugação dos dois volumes soma mais de 700 páginas, que também contam com imagens da escritora e reproduções documentais do seu espólio, de que é fiel depositária a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

A pesquisa e introdução é da investigadora Ângela Almeida, especialista na obra da escritora, autora de "Natália Correia, Mãe Ilha, catálogo biobibliográfico e iconográfico" (1993), "Retrato de Natália Correia" (1994) e responsável pela organização e introdução de "In Memoriam Natália Correia" (2006).

O lançamento, no Botequim, acontece exatamente 40 anos depois de a poetisa escrever, com pessimismo: “O indicativo é sombrio: aproximamo-nos daquele ponto agónico em que as direitas têm à mão a grande e detestável competência para castigar os filhos rebeldes, submetendo-os à sua brutal decisão de fazer entrar isto na ordem”.

E, mais tarde, já com a vitória dos Comandos: “Bombas e petardos rebentam em vários pontos do País. Festeja-se o afogamento da revolução. Lisboa é o sítio do naufrágio. O telefone retine insistentemente. São amigos do Porto, de Coimbra. Pedem-me que saia deste inferno. 'É uma loucura ficares aí, à mercê da catástrofe.' Mas fico. Agora sim, decifram-se reais prenúncios do abalo que poderá endireitar o eixo da revolução. O estrondo que lhe cate as parasitárias mentiras. Ganhe quem ganhar, o que é preciso é a bomba que solte a vaga dos apavorados”.

 


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