Novo governo tenta conciliar promessas eleitorais com realidade europeia

Novo governo tenta conciliar promessas eleitorais com realidade europeia

 

Lusa/AO Online   Internacional   23 de Fev de 2015, 05:25

O aguardado braço de ferro entre Atenas e as instituições europeias definiu os primeiros 30 dias do Governo do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, líder do partido da esquerda radical Syriza que venceu destacado as legislativas de 25 de janeiro.

Durante três semanas, Atenas negociou com os seus parceiros da zona euro um prolongamento do resgate financeiro, a mais pesada herança dos anteriores executivos, e que terminava no final de fevereiro. Um confronto amargo, protagonizado pelos ministros da Finanças da Grécia Yanis Varoufakis, 53 anos, e o seu homólogo alemão Wolfgang Schauble, 72 anos, que quase eclipsaram os restantes 17 parceiros da zona euro, e a própria Comissão Europeia.

O tempo jogava contra os novos líderes helénicos. A partir de 28 de fevereiro o país arriscava-se a ficar privado de novos empréstimos internacionais e numa situação ainda mais dependente.

Na noite de sexta-feira, após duas anteriores e inconclusivas reuniões do Eurogrupo (que junta os 19 ministros das Finanças da zona euro), foi anunciado um acordo político entre as partes com cedências mútuas, apesar de a Grécia permanecer sob intensa pressão. O resgate será prolongado por quatro meses e mantém-se a supervisão das tomadas de decisão e a sua monitorização detalhada pelas instituições da ‘troika’ (União Europeia e FMI), que Atenas queria evitar.

Os responsáveis gregos devem ainda apresentar até hoje um catálogo de reformas que será analisado por funcionários da ‘troika’ na terça-feira. O Eurogrupo tomará de seguida conhecimento da decisão dos credores internacionais, da qual depende a assinatura do acordo final.

Mas os contornos deste intenso debate também indicam que a Europa entrou numa nova fase após a vitória eleitoral do Syriza.

Um dia após as discretas celebrações do triunfo, Tsipras, 40 anos, assinalou a viragem política. Prestou um juramento civil como chefe do governo, e no Parque Skopeftirio visitou o monumento nacional que homenageia centenas de resistentes gregos fuzilados pelos invasores alemães durante a II Guerra Mundial.

Mas as relações com a UE surgiram como o principal desafio do novo executivo de coligação, após a confirmação da aliança governamental com os Gregos independentes (Anel, direita nacionalista anti-memorando) de Panos Kammenos, que ficou com a pasta da Defesa.

A formação do novo Executivo foi rápida. Dois dias após as eleições o novo gabinete reuniu-se pela primeira vez e logo a 30 de janeiro decorreu a atribulada visita à capital grega do chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, 48 anos, primeiro sinal sério das desavenças intra-europeias.

De seguida, Varoufakis iniciava uma ronda por diversas capitais com os planos para a renegociação da dívida grega – que se tem agravado desde 2008 –, enquanto Tsipras buscava apoios, pouco entusiastas, em Bruxelas, Roma, Paris ou Viena e pretendia surgir como “exemplo” para as populações dos “países periféricos” do sul europeu.

A readmissão de centenas de empregadas de limpeza despedidas pelo anterior Ministério das Finanças foi um sinal sobre como o novo Governo pretendia atuar, apesar de ainda permanecerem por esclarecer as medidas destinadas a recuperar os empregos na função pública ou combater o flagelo do desemprego (cerca de 26% da população ativa, ultrapassando os 50% entre os jovens).

Num país onde mais de 30% da população se encontra no limiar da pobreza, o aumento do salário mínimo, das reformas dos mais fracos, o fim dos despejos de inquilinos sem posses, o combate à corrupção e evasão fiscal ou o congelamento das privatizações em setores decisivos são outras bandeiras do Syriza e que lhe garantiram perto de 2,3 milhões de votos, um valioso “capital político”, mas que podem colidir com o acordo de sexta-feira.

Ao interpretar esta solução de compromisso, Tsipras disse no sábado que o país “deixou para trás a austeridade, o memorando, a ‘troika’”, e atingiu o seu “objetivo principal”. Uma forma de corresponder às altas expectativas da população e manter o atual “estado de graça” do Governo.

Uma sondagem divulgada em 14 de fevereiro para a televisão privada Alpha referia que o Syriza obteria 45,4% dos votos (36,4% em 25 de Janeiro), enquanto 83,1% dos inquiridos manifestaram opinião positiva sobre os primeiros dias do novo Governo.

Um apoio ao qual não será estranho o desígnio de um Governo ainda em “estado de graça” que apelou à população para se unir em torno de um objetivo mobilizador, a recuperação da “dignidade nacional”.

A nível interno, o Syriza também resolveu a questão da eleição do novo Presidente da República pelo parlamento – um impasse que esteve na origem da antecipação das legislativas para 25 de janeiro –, com a designação do ex-ministro conservador Prokopis Pavlopoulos e a tradicional preservação do equilíbrio institucional.

No rescaldo de três semanas de grande tensão negocial, Tsipras considerou ainda no sábado que o Governo da esquerda radical garantiu “muito sucesso” mas que tem perante si “uma estrada longa e difícil”.

Afinal, Atenas cedeu mais que Bruxelas, ou Berlim. “Uma derrota fora de casa pela margem mínima”, como então ironizou Varoufakis.


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