Não há polarização de classes nas manifestações

Não há polarização de classes nas manifestações

 

AO/Lusa   Internacional   27 de Mar de 2016, 17:27

O juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro Gilmar Mendes recusa a polarização da sociedade brasileira, entre ricos e pobres, na contestação ao Governo e ao Partido dos Trabalhadores (PT) da Presidente, Dilma Rousseff.

 

Em entrevista à agência Lusa, Gilmar Mendes, o magistrado que confirmou a suspensão da posse de Luiz Inácio Lula da Silva como ministro de Dilma Rousseff, afirma que “é claro que não existe” essa divisão, desafiando o mundo a observar quem se manifesta.

“Temos de tudo nessas manifestações”, diz, dando o exemplo da marcha de “mais de um milhão de desempregados lá em São Paulo”, uma cidade onde “as empresas fechando” e existe “uma crise económica”, afirmou o magistrado, considerando que os que defensores do Governo têm “mais um discurso para arranjo político”, mas o argumento “não tem nenhuma consistência”.

Os apoiantes do governo têm acusado os manifestantes a favor do ‘impeachment’ de Dilma Rousseff de serem ricos ou de classe média, mas o magistrado, conotado com o anterior Presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira) recorda que a operação judicial Lava Jato, que espoletou esta crise, visa “a elite empresarial que se envolveu com o Governo e que agora está a ser investigada”.

“Está preso no Brasil Marcelo Odebrecht (condenado a 19 anos e quatro meses de prisão), que é o presidente da maior empresa brasileira, quiçá talvez da América Latina, que é acusado de ter feito um pacto com o Governo. Vários empresários estão presos ou foram presos, ou estão a ser investigados. Eles são acusados de terem tido feitos pactos escusos com o Governo. Eles são da elite, portanto, esse discurso não fica em pé”, explicou o juiz brasileiro.

Marcelo Odebrecht foi condenado no âmbito da Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014 pela Polícia Federal (PF) brasileira, que investiga um esquema de corrupção, branqueamento de capitais e desvio de dinheiro envolvendo a companhia estatal brasileira Petrobras.

“As investigações da Lava Jato levaram a crise para o centro do Governo, envolvendo inclusive o ex-Presidente Lula, daí as manifestações que se sucedem e realmente há manifestações em prol do Governo e contra o Governo, mas estas que são contra o Governo não são financiadas, não são apoiadas por sindicatos”, acusa o magistrado, lembrando que, no dia 13 de março, seis milhões de pessoas saíram às ruas para protestar, um número muito superior aos manifestantes pró-governamentais, em iniciativas promovidas pelas centrais sindicais.

“No Brasil fala-se que as campanhas dos sindicatos são do tipo ‘mortadela’, porque no geral acaba com uma sanduíche”, como recompensa pela presença, salientou.

Gilmar Mendes está em Lisboa para participar no IV Seminário Luso-Brasileiro de Direito, promovido pelo Brasília do Instituto Brasiliense de Direito Público (EDB/IDP - do qual o magistrado brasileiro é cofundador) e a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), entre 29 e 31 de março.

O evento abordará neste ano o tema “Constituição e Crise – A Constituição no contexto das crises política e econômica”.

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