Monjardino diz que "falta de previsão" e "incompetência" nacional não acautelou saída dos EUA das Lajes

Monjardino diz que "falta de previsão" e "incompetência" nacional não acautelou saída dos EUA das Lajes

 

LUSA/AO Online   Regional   25 de Jan de 2015, 13:42

O primeiro presidente do parlamento dos Açores, Álvaro Monjardino, considera que "a falta de previsão" e a "incompetência" portuguesa não acautelaram a saída dos EUA das Lajes, o fim de mais um ciclo de presença estrangeira no arquipélago.

Em entrevista à agência Lusa, o também ex-ministro Álvaro Monjardino lembra que os Açores, por estarem longe de zonas costeiras e haver grande dispersão das ilhas, permitem "definir grandes zonas económicas exclusivas" e "espaços marítimos" em seu redor sem problemas de colisão de fronteiras, estando "à mercê" dos "interesses de quem tiver geoestratégias no Atlântico". Foi o que teve Portugal, quando povoou as ilhas e depois as usou para as rotas do comércio das Índias e da costa africana. Seguiram-se os espanhóis, que se instalaram nos Açores quando os Filipes reinavam, simultaneamente, em Portugal e Espanha, tendo feito de Angra do Heroísmo ponto de passagem do ouro e da prata que transportavam para a Europa. Já no século XIX, foram os ingleses que se interessaram pelas ilhas e instalaram no Faial os cabos submarinos de comunicação. O século XX trouxe os norte-americanos. Depois da base naval que tiveram em Ponta Delgada na Grande Guerra, instalaram-se nos Açores no final da Segunda Guerra Mundial. A base das Lajes, na Terceira, foi valiosa para os Estados Unidos da América (EUA), sobretudo, no âmbito da Guerra Fria. A História mostrou que "cada vez que havia um desinteresse estratégico nisto, as ilhas caíam em decadência e em problemas", prossegue Álvaro Monjardino, que presidiu à Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores de 1976 a 1984. Apesar destes ensinamentos da História, sublinha, "não há uma única cláusula de salvaguarda para uma transição", uma "almofada" ou "a criação de um amortecedor" em caso de corte significativo ou retirada dos EUA das Lajes nos sucessivos acordos que foram assinados com os norte-americanos. "As culpas, quase todas, estão do nosso lado, por falta de visão, por falta de previsão e por incompetência diplomática portuguesa", afirma, atribuindo também responsabilidades às autoridades regionais. "Se se quer efetivamente ter uma política para bem das pessoas é preciso ter capacidade de prever que estas situações, mais tarde ou mais cedo, acontecem. O que não quer dizer que daqui a não sei quantas gerações não surja outra oportunidade, que ao longo de 500 anos tem havido várias", acrescenta. Com a redução do contingente norte-americano nas Lajes, este ano, os Açores entram num período em que andarão "um bocadinho esquecidos" e a que Monjardino chama uma fase de "pausa e esquecimento" por parte dos interesses da geoestratégia internacional, que tem repercussões na vida das ilhas. "O que se devia era fazer qualquer coisa que preparasse esta gente que aqui está e que ao estar aqui está a garantir que estas ilhas são portuguesas. É uma coisa que não se pensa. Não é a tropa que faz isto português, é haver gente a morar aqui. Isso, às vezes, tem de ter um custo para o país. É isto que se chama a teoria dos custos da insularidade", refere. O ex-ministro adjunto do Governo de Mota Pinto (PSD) desconfia de que a extensão da plataforma continental tenha sido "objeto de alguma promessa dos americanos de apadrinharem" as pretensões nacionais, no seio das Nações Unidas. "Provavelmente eles não se importam que Portugal", um país que tem sido "dócil" com os Estados Unidos, "fique com a plataforma, que é para depois fazerem aquilo que quiserem dela", afirma. Para Álvaro Monjardino, se os Açores foram mantidos à margem de entendimentos entre Portugal e os EUA no desfecho deste processo das Lajes, "o Governo português andou muito mal". Por outro lado, considera que dificilmente os EUA estarão na disponibilidade de transferir verbas para os Açores, para compensar a sua saída, como pede o Governo Regional: "Eles cumpriram o acordo".

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