Maria Barroso, a atriz, ativista e companheira de vida de Mário Soares


 

Lusa/AO Online   Nacional   7 de Jul de 2015, 08:22

Maria Barroso, que hoje morreu aos 90 anos, destacou-se como atriz, declamadora e ativista política e ao longo de 66 anos acompanhou a vida do histórico líder socialista e antigo Presidente da República Mário Soares.

Maria Barroso casou em 1949 com Mário Soares, de quem tem dois filhos, João e Isabel, e foi uma das fundadoras do Partido Socialista (PS), na Alemanha, em 1973.

Maria de Jesus Barroso Soares, nascida a 02 de maio de 1925, na Fuseta, Olhão, formou-se em Arte Dramática no Conservatório Nacional, em 1943, e licenciou-se em História e Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquele que seria o seu marido.

Viriam a casar-se quando o fundador do PS se encontrava preso por motivos políticos.

Maria Barroso estreou-se como atriz no Teatro Nacional, em 1944, na companhia Amélia Rei Colaço/Robles Monteiro e na peça "Aparências", dirigida por Palmira Bastos, tendo o papel na peça de José Régio "Benilde" sido considerada uma das suas interpretações mais memoráveis.

Destacam-se ainda participações no cinema, em vários filmes como "Mudar de vida", de Paulo Rocha, ou "Le soulier de Satin", de Manoel de Oliveira.

Foi professora no Colégio Moderno, fundado pelo sogro, João Lopes Soares, mas chegou a ser proibida de ensinar durante o Estado Novo.

Em 1969, candidatou-se a deputada pela Oposição Democrática, tendo sido a única mulher a intervir na sessão de abertura do III Congresso daquela organização, em 1973, em Aveiro.

No mesmo ano, participou, na Alemanha, na reunião fundadora do Partido Socialista. Na altura, votou contra a ideia de fundação do PS, o que muito aborreceu Mário Soares.

"Julgávamos que não era bem a altura de formar o PS, devíamos esperar um bocadinho antes de tomar a decisão. Estávamos errados e Mário Soares estava certo, a História provou-o", disse a própria numa recente entrevista ao jornal i a propósito do seu 90.º aniversário, a 02 de maio de 2015.

Depois do 25 de Abril de 1974, foi por várias vezes eleita deputada à Assembleia da República, pelos círculos de Santarém, Porto e Faro.

Em 1986, assumiu o papel de mulher do Presidente da República, quando Mário Soares foi eleito para um primeiro mandato.

Durante uma década no Palácio de Belém dedicou-se à defesa de causas como o apoio aos países de língua portuguesa, a prevenção da violência, a luta contra o racismo e a exclusão social.

Depois de Mário Soares ter deixado a Presidência da República, em 1997, Maria Barroso presidiu à Cruz Vermelha Portuguesa, cargo que ocupou até 2003.

Foi fundadora e era presidente da Organização Não Governamental (ONG) Pro Dignitate - Fundação de Direitos Humanos, desde 1994, e da Fundação Aristides de Sousa Mendes.

Numa entrevista ao jornal i, Maria Barroso confessou que apesar de todas as "contrariedades, de todos os revezes e de todas as encruzilhadas, valeu a pena ter vivido".

"Sinto que estou quase a partir, que se aproxima o momento", acrescentou então.

Sobre a sua relação com Mário Soares - depois de contar um episódio em que cedeu à vontade dele e não se inscreveu no curso de Direito - afirmou: "Tive sempre a ideia de não fazer nada que o enervasse e o contrariasse, por isso estamos casados há 66 anos. Temos uma relação excelente, que é fruto dessa compreensão".

Admitiu que não fazer o curso de Direito foi um dos sonhos que deixou para trás por causa do marido.

"Fora isso, quis acompanhá-lo sempre, mesmo nos momentos mais difíceis", acrescentou.

Católica desde a infância, admitiu ter-se afastado da religião durante os tempos de faculdade, uma reaproximação que só voltou a acontecer quando o filho João Soares sofreu um acidente de aviação em Angola.

"Todas as manhãs chegávamos ao hospital e eu perguntava por ele ao médico que chefiava a equipa. Um dia, ele respondeu-me que “estava um bocadinho melhor, mas só um bocadinho, porque continuava muito mal. Peça a Deus. Pedi a Deus. Mas, antes disso, pedira a uma funcionária do colégio, muito minha amiga, para encomendar uma missa pelo João. Senti-me bem nesse novo encontro com a religião", relatou.

Questionada pelo jornalista sobre como gostaria de ser recordada respondeu: “Uma cidadã modesta, mas amante da liberdade, da solidariedade e do amor. A minha palavra preferida, sem qualquer dúvida (…) o amor!".

Maria de Jesus Barroso morreu hoje, aos 90 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde estava internada, em estado grave, desde 26 de junho, disse à agência Lusa fonte do hospital.


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