Manuel de Arriaga, um Presidente de "altos valores éticos" que pagou para viver em Belém

Manuel de Arriaga, um Presidente de "altos valores éticos" que pagou para viver em Belém

 

Lusa/AOOnline   Regional   3 de Mar de 2017, 08:48

O primeiro Presidente da República, que morreu há 100 anos, foi um homem de "altos valores éticos" que pagou para viver no Palácio de Belém, disse o diretor do Museu da Horta, de onde era natural Manuel de Arriaga.

 

“A sua própria residência oficial é um arrendamento que fez do seu bolso, primeiro ao Palácio do Manteigueiro, no Chiado, onde hoje é o Ministério da Economia”, afirmou Luís Meneses, explicando que, a partir de 1912, Manuel de Arriaga pagou mensalmente ao Ministério das Finanças “100 mil réis” pela renda no Palácio de Belém, em Lisboa.

Manuel José de Arriaga Brum da Silveira (Horta, 1840 – Lisboa, 1917) foi o primeiro presidente da República de Portugal, tendo sido eleito com 121 votos, mais 35 do que Bernardino Machado, um dos principais adversários, a 24 de agosto de 1911, segundo a página na Internet da Presidência da República.

O seu mandato decorreu num período político conturbado, durante o qual empossou seis governos. Foi obrigado a resignar a 26 de maio de 1915, “saindo do Palácio de Belém escoltado por forças da Guarda Republicana”, informa a página.

“Renunciou muito magoado, por ter sido acusado como um ditador que tinha suspendido a Constituição e, no fundo, a postura de Manuel de Arriaga foi a de tentar conciliar o inconciliável dada a situação política do regime republicano”, destacou Luís Meneses.

Para o diretor do Museu da Horta, na ilha do Faial, que colaborou na elaboração do programa científico da Casa-Museu Manuel de Arriaga, na mesma cidade, o primeiro chefe de Estado do país foi “um Presidente que serviu a República e não o contrário”, tendo exercido o mandato “de forma muito cautelosa e dialogante”.

“Tinha como seu secretário particular um filho, a quem assegurava a despesa. O carro do Presidente da República também era pago do seu bolso. Existem recibos e faturas”, realçou Luís Meneses, acrescentando que quando o Presidente, por motivos de saúde, teve de ir para próximo da costa arrendou a Cidadela de Cascais para se restabelecer.

Manuel de Arriaga foi professor, advogado, deputado, escritor e poeta, desempenhando ainda, entre outros, os cargos de procurador da República e reitor da Universidade de Coimbra, instituição onde se formou.

“Era um homem culto, aliás tirou um curso em Coimbra, trabalhando e estudando, uma vez que tinha tido um desaguisado com o pai, com quem durante muitos anos não falou e que lhe cortou a mesada, porque o pai era monárquico e ele republicano”, sublinhou Luís Meneses.

O diretor do museu classificou Manuel de Arriaga como “homem íntegro, sem riqueza, porque não foi herdeiro do pai e acabou por morrer de forma muito simples”.

De acordo com Luís Meneses, Manuel de Arriaga desejou “um funeral simples, mas acabou por ter uma cerimónia com honras de Estado”.

Com o processo de trasladação dos seus restos mortais em 2004 para o Panteão Nacional, em Lisboa, Luís Meneses disse que a figura de Manuel de Arriaga foi “rebuscada e redescoberta pelas novas gerações”, porque “estava um pouco esquecida”.

“O próprio Estado Novo também tratou de colocar no silêncio a obra e a postura política [de Manuel de Arriaga]”, observou Luís Meneses, que tem testemunhado um “crescente interesse” pelo político, através das visitas à casa-museu, o Solar dos Arriagas.

O imóvel, onde nasceu e viveu Manuel de Arriaga até aos 18 anos, foi recuperado pelo Governo Regional dos Açores, tendo sido inaugurado em novembro de 2011 como espaço de interpretação dos ideais republicanos.

Ao primeiro Presidente da República Manuel de Arriaga sucedeu outro açoriano, Teófilo Braga (Ponta Delgada, 1843 – Lisboa, 1924).

 


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