Livro "O Demónio da Depressão", de Andrew Solomon, lançado hoje em Portugal


 

Lusa/AO Online   Nacional   15 de Fev de 2016, 14:43

O livro "O Demónio da Depressão - Um Atlas da Doença", do escritor norte-americano Andrew Solomon, lançado hoje em português, percorre a história de uma enfermidade que aponta como "um mecanismo de desespero".

 

Andrew Solomon, 53 anos, parte da ideia central de que a “depressão é a imperfeição do amor”, para depois organizar um “atlas da doença” ao longo da história, dos vários tipos de patologia, da análise de estatísticas e de entrevistas sobre a forma como a depressão é encarada, nas várias geografias, mas sobretudo com base no próprio caso pessoal.

“Para sermos criaturas que amamos, temos de ser criaturas capazes de desesperar com o que perdemos, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando surge, degrada o indivíduo e acaba por eclipsar a capacidade de dar e receber afeto”, escreve o autor no livro “Demónio da Depressão”, mais de 800 páginas dedicadas à doença, e que hoje é lançado em Portugal.

O escritor, que venceu o National Book Award, em 2001, com o livro “O Demónio da Depressão”, conclui - através da longa pesquisa - que a ciência, a filosofia, o direito, a psicologia, a literatura, a arte, a história e “muitas outras disciplinas” têm estudado a doença, mas que, no campo específico dos estudos da depressão, “faltava uma síntese”.

“Apesar de propor explicações e interpretações de ideias complexas, esta obra, não pretende substituir um tratamento apropriado”, afirma o autor sublinhando que “O Demónio da Depressão” é um livro “extremamente pessoal” e que não deve ser considerado, de modo nenhum, mais do que isso mesmo.

No “Atlas” de Solomon, são estabelecidas rotas e conclusões sobre os diferentes tratamentos, considerações detalhadas sobre os medicamentos utilizados, as distintas terapias e mesmo a dependência em relação a fármacos, tendo como base depoimentos e relatos que permitem perceber que “não há duas pessoas que tenham uma depressão semelhante”.

Nesse sentido, um dos aspetos mais interessantes da “pesquisa” de Andrew Solomon sobre a depressão é o estudo da doença em vários pontos do mundo, como no Senegal, Camboja ou na Gronelândia.

“As características distintivas da depressão na Gronelândia não são o resultado direto da temperatura e da luz; são a consequência do tabu de não falarem acerca deles mesmos”, refere o escritor.

Além da “história” da depressão no ocidente - da antiguidade clássica ao Renascimento -, o livro de Solomon preocupa-se também em "desmistificar" as eventuais causas sociais associadas à doença e relativiza as “supostas” ligações da depressão como causa de suicídio, assim como aprofunda as estratégias da indústria farmacêutica e a forma como o poder político lida com um problema que afeta milhões de pessoas, no caso dos Estados Unidos.

“As definições de depressão influenciam determinantemente as decisões políticas, que, por seu turno, têm influência em quem sofre. Se a depressão fosse uma ‘simples doença orgânica’, então deveria ser tratada como é tratada qualquer doença orgânica – as companhias de seguros deveriam cobrir os riscos de depressão grave da mesma forma que cobrem os riscos de cancro”, escreve Solomon.

Do ponto de vista pessoal, o escritor refere que a a depressão tem sido “mais ou menos” dividida em menor (leve) e maior (profunda), sendo que a depressão leve é um facto gradual e, por vezes, permanente, “que desgasta as pessoas como a ferrugem corrói o ferro”.

“Num caso [leve], é uma dor demasiado profunda para uma causa ligeira, um sofrimento que se sobrepõe a todas as outras emoções e as elimina. A depressão profunda é, ao mesmo tempo, um nascimento e uma morte: ambos são uma presença de alguma coisa nova e o total desaparecimento de qualquer coisa”, escreve Andrew Solomon, com base nos diagnósticos e nas notas dos casos de depressão que o afetam há longos anos.

“O diagnóstico é tão complexo como a doença. Os pacientes estão constantemente a perguntar ao médico: ‘Estou com uma depressão?’, como se o resultado fosse uma análise ao sangue. A única forma de descobrirmos se estamos deprimidos é ouvirmo-nos e observarmo-nos a nós próprios, para sentirmos os nossos sentimentos, e depois analisá-los”, indica o autor, sublinhando que “nenhum livro pode medir o alcance do sofrimento humano”.

“O Demónio da Depressão – Um Atlas da Doença” de Andrew Solomon (Quetzal Editores, 812 páginas), com tradução de Francisco Paiva Boléo e Constança Paiva Boléo, chega hoje às livrarias portuguesas.

 

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.