Fumadores contra o fundamentalismo e descriminação da nova lei


 

Lusa   Nacional   30 de Dez de 2007, 11:30

A nova lei do tabaco é fundamentalista, autoritária e vai criar um "Tarrafal" para quem fuma, queixaram-se alguns fumadores contactados pela Lusa, que hesitam entre respeitar a lei e moldá-la à intensidade do seu vício
O juiz-desembargador José Gabriel Silva, que fuma charutos "por prazer" há dez anos, apelidou a nova legislação de "fundamentalismo higienista" e considera que o Estado "não se devia intrometer em esferas que dizem respeito à forma de vida das pessoas".
O magistrado argumenta que o gabinete de trabalho é um local privado e que, por isso, "aí a lei não tem de ser cumprida".
Mas a lei é clara: o fumo será proibido em espaços fechados, como locais de trabalho, de antendimento directo ao público ou restaurantes que não estejam adaptados para o efeito.
"São intromissões autoritárias. As pessoas têm o direito a escolher o seu estilo de vida, trata-se da sua vida pessoal", defendeu o juiz, sublinhando a falta de bom senso nesta lei.
Mais dramático é o realizador Fernando Lopes, um arreigado fumador de 72 anos, que acusou a nova lei de criar "um Tarrafal para os fumadores".
"Fumar é um direito que me assiste e a nova lei é a do politicamente correcto e só vai criar excluídos. Estão a criar um Tarrafal para os fumadores", exclamou o realizador, que fuma desde os 15 anos.
Nos restaurantes que frequenta, Fernando Lopes sabe que em pelo menos um - o Gambrinus - não vai ter que deixar o cigarro à porta. "Terei é que fazer as reservas mais cedo!".
Deixar de fumar em locais públicos não vai ser um problema para o presidente do Governo Regional da Madeira, porque diz que só fuma em casa, depois do jantar, ou quando está a trabalhar no seu gabinete.
Apreciador de charutos - "um prazer e um gosto"-, Alberto João Jardim considera que a nova lei do tabaco é um sinal dos tempos que correm.
"Eu creio que é uma legislação que faz Portugal continuar a copiar o fundamentalismo que em certas matérias se apossou na nossa civilização", um fundamentalismo que é apoiado por quem quer "impor à sociedade novos tipos de planificação".
O treinador do Sporting de Braga, Manuel Machado, que fuma cerca de trinta cigarros por dia, não está muito preocupado com as regras para os fumadores, apesar da nova lei do tabaco não afectar os estádios de futebol.
"Há males maiores no mundo. Não vejo que se proíba a venda do álcool, assumidamente um mal bem maior na nossa sociedade", disse.
É certo que vai respeitar o que está escrito na lei, mas encontra nestas restrições uma certa ambiguidade e dá como exemplo os automóveis: "o meu carro tem catalizador e há muitos não fumadores que têm viaturas que poluem muito mais do que a minha e tenho de levar com isso sem que nada seja feito nesse sentido". 
O fadista Camané, que fuma um maço e meio por dia, vai ter mais dificuldade em combater o nervosismo antes dos concertos, porque é proibido fumar em salas de espectáculos.
Para o artista, a nova lei "provoca uma maior discriminação dos fumadores", mas admite mudar alguns hábitos.
"Não deixarei de ir aos restaurantes onde gosto de comer por causa da proibição, apesar de achar que devia ser possível criar um espaço ou maneiras mais económicas de se evacuar o fumo", disse o criador de "Fado Penélope".
O administrador-executivo da empresa de construção civil Mota-Engil, António Mota, está conformado com a nova lei: "vou deixar de fumar nos locais públicos, não tenho outro remédio e por isso, é claro que as minhas rotinas vão mudar. A legislação é europeia e nós temos que nos adaptar a ela".
Já a pianista Gabriela Canavilhas, fumadora há 25 anos, com um hábito que se restringe à esfera doméstica e de trabalho, resume a filosofia da nova legislação: "fundamentalmente irá disciplinar os fumadores e procurará minimizar os danos do tabaco na saúde pública".

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