É preciso “pensar e apoiar projetos inovadores para a saúde dos açorianos”

É preciso “pensar e apoiar projetos inovadores para a saúde dos açorianos”

 

Miguel Bettencourt Mota   Regional   23 de Abr de 2018, 09:58

Sara Ponte exerce medicina em São Miguel. Está na Índia para apresentar o filme ‘Vive’, que ‘convida’ o Serviço Regional de Saúde a olhar às potencialidades da medicina integrativa.


Apresenta o ‘Vive’, curta-metragem documental da sua autoria e de Filipe Tavares, esta quinta-feira, na Índia. Que mensagem pretende transmitir?


O “core value” do filme está relacionado com o impacto que a prática de yoga teve na vida de um grupo experimental composto por 86 utentes do Centro de Saúde de Ponta Delgada. Quis revelar, através do testemunho direto e espontâneo dos participantes, quais os ganhos em saúde que obtiveram após seis meses de prática regular de yoga, bem como, reforçar o potencial terapêutico que as intervenções mente-corpo (tal como, yoga, meditação mindfulness, qigong, pilates, acupuntura, reiki, etc.) podem ter se inseridas no sistema público de saúde.


Quais são as grandes problemáticas que o ‘Vive’ aborda e deixa a nu?


Na minha opinião, as duas grandes problemáticas são a sobremedicação da sociedade e a desresponsabilização da população pela sua saúde (...). Observamos uma população cada vez mais dependente do binómio médico-farmacêutico, onde a doença (e não a saúde) assume um lugar central. É necessário mudar de paradigma, através do conhecimento e integração de abordagens terapêuticas mais naturais. A população tem de se capacitar que a saúde começa e termina na atitude que assumem perante a vida, na forma como percecionam os seus problemas e nas escolhas e hábitos diários.


A Sara é médica interna de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel, mas também formada em Medicina Tradicional Chinesa. Como olha à integração dos modelos holísticos no Serviço Regional de Saúde (SRS)?


Ainda com muitas resistências... Existem ainda lacunas e necessidades basilares nos Cuidados de Saúde da Região, tais como a falta de profissionais de saúde, a necessidade imperativa de se criar e generalizar os núcleos de saúde familiar, às vezes até a falta de recursos materiais básicos. O SRS encontra-se focado a investir na colmatação destas e outras falhas. No entanto, estas fragilidades não podem ser impeditivas de se pensar e apoiar projetos inovadores para a saúde dos açorianos e para um desenvolvimento mais sustentável do SRS.

O corpo médico é ainda algo renitente a aceitar a complementaridade das terapias naturais?


Gradualmente assistimos a uma maior abertura por parte do corpo médico, principalmente nas novas gerações de médicos, com um novo olhar para a dimensão holística da saúde e do ser humano. No entanto, a formação médica sobre o potencial terapêutico das medicinas não convencionais é quase nula. As faculdades de medicina não oferecem formação sobre as técnicas utilizadas, os seus efeitos e benefícios, as precauções e contraindicações, bem como a investigação desenvolvida nestas áreas. Mediante o desconhecimento, é difícil o médico recomendar, referenciar ou aceitar a sua complementaridade.


No que respeita diretamente aos Açores, o que se revela como mais preocupante?


(...) As perturbações de ansiedade, depressivas ou mesmo as perturbações de adaptação a eventos traumáticos ou geradores de (dis)stress são cada vez mais prevalentes entre os açorianos (...) Segundo o último Inquérito Regional de Saúde dos Açores (2014), mais de metade da população é sedentária e cerca de 32% dos açorianos, com idades entre os 20 e os 74 anos, sofre de distúrbios psicológicos. Uma outra problemática importante que a nossa Região enfrenta, relaciona-se com a iliteracia para a saúde. Há um grande desconhecimento sobre quais os comportamentos de vida mais saudáveis (hábitos alimentares, de sono, gestão de stress, consciência corporal e postural, regulação emocional e dinâmica familiar), bem como sobre o correcto acesso aos cuidados de saúde primários e secundários.


...Está em crer que, por exemplo, o yoga pode substituir uma prescrição médica convencional, como um antidepressivo ou um ansiolítico?


Acredito que o futuro passa pela Medicina Integrativa, uma nova abordagem médica que alia o melhor da medicina convencional com os benefícios das terapêuticas não convencionais. Países como a China, Inglaterra, Cuba e Brasil, encontram-se na vanguarda da Medicina Integrativa. Os seus utentes quando recorrem aos Cuidados de Saúde Primários é lhes oferecido uma abordagem integrada com a possibilidade de terem acesso a práticas como a Medicina Tradicional Chinesa, a Medicina Ayurveda, o Yoga, a Massagem Terapêutica, a Osteopatia, a Terapia Termal, entre outras. De certa forma, o estudo de investigação que desenvolvemos constituiu um primeiro passo para essa transição, uma vez que os participantes foram referenciados pelos profissionais de saúde da Unidade de Saúde de São Miguel (USISM).

Esta perspectiva integrativa começa a manifestar-se na nossa Região. Exemplo disso, temos o excelente trabalho que está, actualmente, a ser desenvolvido nos Cuidados de Saúde Secundários, pela Comissão Hospitalar de Práticas Naturais e Integrativas do Hospital Divino Espírito Santo e pelo projecto “Exercitar”, destinado a doentes oncológicos.


Tem esperança que o filme possa ser visto na Região?


Neste momento, lançamos o trailer promocional do “VIVE” na página do Facebook da ARTAC - Associação Regional para a Promoção e Desenvolvimento Sustentável do Turismo, Ambiente, Cultura e Saúde, associação parceira deste projeto. Após a sua estreia no FISFA, o filme será disponibilizado na internet e acessível a todos. Pretendemos também divulgá-lo a todos os colaboradores da USISM, bem como, em conferências médicas ou eventos na área da saúde. Acima de tudo, o nosso principal objectivo é que se crie uma reflexão pública sobre o panorama atual dos cuidados de saúde primários da Região, qual a sua importância e quais as melhores estratégias para a sua melhoria e desenvolvimento sustentável.










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