Crise brasileira requer diálogo para enfrentar raízes económicas e políticas

Crise brasileira requer diálogo para enfrentar raízes económicas e políticas

 

Lusa / AO online   Internacional   22 de Ago de 2015, 12:13

A atual crise brasileira tem raízes tanto económicas quanto políticas e ultrapassá-la depende de um diálogo do Governo tanto com a sociedade civil como com políticos da coligação e de oposição.

 

A crise do Governo da Presidente Dilma Rousseff é a conjunção de vários fatores, começando pela vertente económica e a crise económica internacional de 2008 que, no Brasil, foi combatida com uma política de estímulo ao consumo e à produção, com desonerações de impostos, e baixas da taxa oficial de juros.

A política económica e os benefícios sociais foram bandeiras do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Rousseff. Entretanto, o modelo deixou de se sustentar, com a estagnação da capacidade de consumo e da produção, e o aumento da inflação.

Enquanto alas à esquerda defendiam medidas como a taxação das fortunas, empresários apoiaram um ajuste fiscal. Rousseff escolheu um ministro do mercado financeiro, Joaquim Levy, que ajudou a desenhar um corte dos gastos e um pacote de medidas impopulares.

O pacote desagradou a movimentos sociais e sindicatos, base de apoio do Partido dos Trabalhadores (PT, de Rousseff), e, devido a divergências políticas, enfrentou dificuldades para ser aprovado no Legislativo. A demora dececionou também o mercado financeiro e a projeção de recuperação do país foi adiada para 2017.

Na vertente política, desde o seu primeiro mandato que Rousseff demonstrou dificuldades de articulação, ao contrário de seu antecessor, e partidos da coligação pediam mais espaço. A onda de manifestações de 2013, entretanto, gerou promessas de reforma política e diálogo.

A reforma política não singrou no Legislativo e após as eleições de 2014, a dificuldade de articulação política do Governo aumentou, com a eleição de parlamentares mais conservadores e contrários ao PT.

Rousseff, que no seu primeiro mandato tinha uma imagem de boa gestora, viu sua rejeição chegar a 71 por cento no segundo mandato, de acordo com o Datafolha. A deterioração da imagem foi influenciada porque suas promessas de campanha não se concretizaram, não houve um reconhecimento de erros, e o ajuste fiscal foi adotado sem um diálogo com a sociedade civil.

A polarização das eleições de 2014 também contribuiu para a crise política. Os dois maiores partidos, o PT e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, de Aécio Neves), trocaram críticas agressivas, e Rousseff venceu apenas com 51,64% dos votos. As acusações e a pequena margem de diferença foram uma faísca para as manifestações anti-Governo deste ano, reunindo principalmente opositores, mas também eleitores do PT descontentes.

A terceira principal razão da atual crise é a falta de credibilidade. Mesmo que a corrupção no Brasil seja anterior aos governos do PT, a Operação Lava Jato e os desvios na Petrobras são o segundo grande caso que envolve integrantes do partido, após o chamado "mensalão" (pagamento de suborno em troca de apoio parlamentar).

Rousseff não foi vinculada aos desvios diretamente, mas a Presidente é criticada por que era o principal nome do Conselho de Administração da Petrobras, enquanto ministra de Minas e Energia, quando parte das irregularidades investigadas aconteceram.

As três pontas da crise exigem diálogo para serem solucionadas, já que a aprovação das medidas econômicas exige negociação política, e a recuperação da credibilidade do Governo, o apoio da sociedade civil. Um consenso é necessário para tirar o país da crise, e não para salvar o Governo do PT, que está desgastado.

Apesar da crise multifacetada e das manifestações que reúnem milhares de pessoas a pedir a impugnação do mandato de Rousseff, neste momento não há bases necessárias para que ela ocorra, já que não há um envolvimento claro entre a Presidente e a corrupção. Diferentemente do que ocorre no parlamentarismo, no presidencialismo brasileiro uma má administração não é motivo formal para pedir a saída de um Presidente.

Uma ameaça para Rousseff pode surgir caso as suas contas de 2014 sejam reprovadas, devido a uma manobra irregular dos bancos públicos. Outro fator que poderia colocá-la em risco é uma deterioração da recessão e uma chegada da crise no agronegócio, principal fonte de exportação do país.

Não há atualmente em qualquer partido brasileiro um líder de consenso na sociedade. A oposição faz críticas, está a articular-se para as próximas eleições, pois assumir agora um Governo em crise poderia ser um tiro no pé.

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.