Combate ao grupo Estado Islâmico será "longo, de passos curtos e com incidentes"


 

Lusa/AO online   Nacional   27 de Nov de 2015, 17:52

O combate ao grupo extremista Estado Islâmico (EI) "será um processo muito longo, de passos curtos e com alguns incidentes", considerou o investigador e comentador Bernardo Pires de Lima.

 

Falando a propósito do lançamento do livro "A Fénix Islâmica", da jornalista e investigadora italiana Loretta Napoleoni, que apresenta este sábado numa livraria em Oeiras, distrito de Lisboa, Bernardo Pires de Lima declarou que a luta contra o EI (Daesh, no acrónimo árabe) "será um processo muito longo, de passos curtos e com alguns incidentes, como o do avião russo abatido", e no âmbito qual "vamos assistir a avanços militares, a recuos políticos e a passos para o lado em termos de alianças".

Um cenário que terá "a agravante de influenciar outros países à volta, no que respeita a instabilidades nas comunidades islâmicas locais e nos fluxos de refugiados, que são já incomportáveis em países como o Líbano, a Jordânia ou a Turquia", acrescentou.

Para o apresentador de "A Fénix Islâmica", o livro mostra que "é necessário conhecer muito melhor o Estado Islâmico para que a resposta da coligação, militar ou política, possa ser mais bem focada e sem tantos prejuízos", pois "a missão tem sido muito cara, com poucos resultados e muito volátil em termos de convergência de interesses".

A autora revela "as bases ideológicas, as raízes, o desenvolvimento, a expansão e o dia-a-dia do Estado Islâmico", antecipou Bernardo Pires de Lima acerca do volume editado pela Ítaca, exemplificando com aspetos pouco ou nada conhecidos do público que diz serem fundamentais para conhecer a génese e evolução do Estado Islâmico.

"Dentro do Islão, há uma linha muito anti-xiita que levou à cisão com a Al-Qaida, pois esta não queria revoltas dentro das comunidades muçulmanas mas agrupá-las contra o Ocidente, e o Estado Islâmico criou uma rutura entre sunitas e xiitas para, só então, partir para uma vertente mais anti-Ocidental, espelhada em ataques - ou na preparação de ataques - cirúrgicos em capitais europeias ou noutras geografias", contou Bernardo Pires de Lima, tendo por base a obra da especialista em questões de terrorismo.

Segundo o investigador, cronista e comentador televisivo, o volume apresenta também "uma crítica feroz àquilo que foi a intervenção americana e o seu impacto na radicalização sunita e na valorização de uma linha apocalítica muito bem estruturada", com resquícios "das milícias e de hierarquias militares do regime de Saddam Hussein, o que explica o rigor e a preparação de um quase exército, que atua numa tão grande extensão territorial na Síria e no Iraque".

Pronunciando-se ainda sobre a reação internacional à situação nestes países, Bernardo Pires de Lima afirmou que "aquilo que se vê são aliados com interesses divergentes sobre a mesma realidade, nomeadamente a Síria, e não-aliados com interesses convergentes".

"A França e os Estados Unidos são aliados com interesses convergentes: tirar o presidente sírio da equação, combater o Estado Islâmico e reforçar as oposições. A Turquia parece querer a mesma coisa mas, no terreno, está a minar as melhores milícias no combate ao Estado Islâmico, que são as milícias curdas, apoiadas pelos Estados Unidos. Por seu lado, a Rússia, a França e os Estados Unidos têm o interesse comum de eliminar o Estado Islâmico mas divergem quanto à continuidade do regime de Damasco", sintetizou.

Quanto à problemática em torno da vaga de refugiados, Bernardo Pires de Lima declarou à Lusa que "o Estado Islâmico não precisa de vir em botes para a Europa, pois já tem elementos implantados nas capitais europeias" e "as células e a garantia de nacionalidade já existem há muitos anos".

O analista considera que a União Europeia "tem sido desconcertante e desconcertada na gestão deste fluxo, altamente reduzido tendo em conta os milhões acolhidos pelos países à volta da Síria, como o Líbano, a Jordânia ou a Turquia, e os sírios deslocados dentro do seu próprio país", face aos quais a oferta de acolhimento da União Europeia é "uma migalha humanitária".

A concluir, Bernardo Pires de Lima afirmou que a situação atual terá "consequências políticas agravadas nos próximos meses, com repercussões em ciclos eleitorais que vão da Escandinávia ao Sul da Europa, passando pelo Leste até à Península Ibérica".

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