Bispo de Angra deixa diocese após 20 anos a promover religiosidade popular açoriana

Bispo de Angra deixa diocese após 20 anos a promover religiosidade popular açoriana

 

Lusa/AO Online   Regional   14 de Mar de 2016, 11:21

O bispo de Angra, António de Sousa Braga, completa 75 anos na terça-feira e deixa este mês a diocese que liderou durante duas décadas, nas quais procurou compreender e orientar a religiosidade popular dos açorianos.

"A recordação maior que eu levo é precisamente esta grande sensibilidade que o nosso povo tem em relação à festa do Espírito Santo, de tal maneira que eu considero que o meu apostolado, o meu serviço à Igreja, é precisamente para promover cada vez mais e melhor o Império do Espírito Santo", salientou, numa entrevista à agência Lusa, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores.

João Lavrador, até então bispo auxiliar do Porto, tomou posse como coadjutor de Angra, em finais de novembro, e vai substituir António de Sousa Braga assim que for aceite o pedido de passagem a bispo emérito.

Natural da freguesia de Santo Espírito, na ilha de Santa Maria (Açores), António de Sousa Braga ingressou num seminário da Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, na Madeira, com 13 anos e, depois de estudar em Coimbra e em Roma, trabalhou no seminário da sua congregação em Alfragide, nos arredores de Lisboa, até ser ordenado bispo, em junho de 1996.

António de Sousa Braga disse ter sido recebido com "grande entusiasmo" pela população, por ser natural dos Açores, mas confessou que pouco conhecia do arquipélago. Por isso, passou o verão a visitar as ilhas, após ter sido ordenado bispo.

O prelado considerou que o facto de ser açoriano e de ter vivido as festas do Espírito Santo desde criança foram vantagens para compreender a religiosidade popular “tão forte” nos Açores e, ao mesmo tempo, desvantagens.

"Tem vantagens, mas por outro lado também tem desvantagens, na medida em que nós facilmente nos deixamos levar por aquilo que é a sensibilidade do povo, porque também somos açorianos e, às vezes, podemos não ter aquela atitude crítica que é necessário ter para ajudar e orientar as pessoas", frisou.

Com 75 anos e a recuperar de um cancro no pulmão, António de Sousa Braga deixa a diocese "com sentido de missão cumprida", assumindo que já não tinha energia para enfrentar os novos desafios da Igreja.

"Exige-se uma nova mobilidade da Igreja, que não se pode fechar nos templos, não se pode fechar nos seus grupos, não pode estar à espera de que as pessoas venham, mas tem que ir ao encontro das pessoas. Há um novo dinamismo e eu penso que eu já não tenho idade, nem capacidade física, nem saúde, para mobilizar a Igreja neste novo tempo em que vivemos", salientou.

Em 20 anos como bispo, que disse terem passado depressa, "nem tudo correu bem" e o maior problema que teve de enfrentar foi uma crise financeira que, até hoje, obriga a Diocese de Angra a ser comedida nas despesas.

"Eu devo ter dado demasiada confiança, não controlei bem, não acompanhei bem a questão da administração (…). Tivemos uma crise muito grande durante vários anos. A diocese só me podia pagar as viagens e não podia financiar as despesas com a pastoral, que aqui nos Açores são altas, porque nós somos ilhas", referiu.

António de Sousa Braga deixa os Açores com as igrejas mais vazias do que quando chegou, apesar de o povo açoriano manter a sua "sensibilidade religiosa".

Para o bispo de Angra, o grande desafio pastoral da Igreja Católica em Portugal é criar um itinerário catequético mais curto, mas capaz de inserir os jovens na comunidade.

"Há, sobretudo, uma grande baixa na participação da missa dominical da categoria dos jovens. Os jovens vão fazendo todo o currículo da catequese que, se calhar, é demasiado longo e, depois, quando são crismados, a maior parte deserta", notou.

António de Sousa Braga defende ainda que se criem ministérios específicos para as mulheres e uma maior aposta na formação dos leigos.

Quando passar a bispo emérito, António de Sousa Braga vai regressar ao seminário da sua congregação em Alfragide, prometendo visitar os Açores de vez em quando para "matar saudades".

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