Entrevista

Baby Dee: sinistra ou genial? Cada um decide no Tremor (vídeo)

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Miguel Bettencourt Mota   Cultura e Social   9 de Mar de 2018, 20:30

Baby Dee nasceu homem nos EUA e hoje é uma mulher de 65 anos. Vem da Holanda para um espetáculo sem guião e traz décadas de música, acasos e ela mesmo ao festival.




A 24 de Março vai atuar em São Miguel, no meio do atlântico. Feliz por isso?


Sim, estou muito entusiasmada com o facto de atuar aí. Nunca estive nos Açores...

...Porque aceitou o convite?


Bem, porque é bom irmos a sítios especiais, sabe? Não é frequente eu poder gozar por inteiro dos festivais em que participo. Geralmente chego, subo a palco, e não tenho tempo para conviver...Agora vou poder fazê-lo e vai ser ótimo poder também conhecer artistas e ir a outros espetáculos. Isso é o que vai tornar tudo mais divertido! Eu toco em muitos festivais, mas nunca posso tirar proveito da ‘coisa’ toda. Apenas o ano passado, quando estive na Itália, num festival em Sant’ Archangelo, tive essa oportunidade...E adorei! Foi aquilo de que gostei mais! Porque podemos conhecer as pessoas e sentimos que fazemos parte do local e da experiência...

Então terá a mesma oportunidade aqui...

...Sim, sim...E sei que vou adorar!


Para aqueles que não conhecem o seu trabalho, o que podem esperar do seu espectáculo? Como pode descrevê-lo?


Sabe? Eu tenho 65 anos, tenho feito isso o diabo da minha vida toda, e continuo a não ter uma resposta para essa pergunta!!! [risos] Não sei, não sei...Eu, ao longo da minha vida, já escrevi música séria, música ridícula e parva...Nunca sei bem! Só no momento percebo o que vai acontecer. Mas provavelmente será uma mistura entre algo sóbrio e estúpido. O que sei é que vou tentar proporcionar um bom momento [mais risos]...

...Tentará surpreender as pessoas?


Bem, eu não tento surpreender as pessoas, mas acho que, às vezes, as pessoas são surpreendidas. Eu sou transgénero e, normalmente, as pessoas esperam que o espetáculo incida sobre isso mesmo. Mas mais vale desistirem dessa expectativa, é um pouco tonta [risos]. Talvez possa surpreendê-las ao não fazer isso.

Em que é que o concerto se vai focar? Apenas no último álbum ‘I am a Stick’, ou vai visitar também temas dos seus trabalhos anteriores?


Sim, será uma mistura. Mas sim, vou apresentar vários temas do ‘I Am a Stick’ porque é o mais recente. Quando toco canções mais antigas, gosto de reescrevê-las. Nunca gosto de fazer a mesma coisa duas vezes. Por isso, as minhas músicas estão sempre em metamorfose.

Vai atuar numa ilha com cerca de 140 mil habitantes, onde não existe, de resto, memória de ter visto nascer um artista transgénero. O que espera em termos de aceitação do público?


Eu tomo as pessoas como elas são. A maior parte da minha vida vivi em Nova Iorque e, em 1999, regressei a Cleveland, Ohio, onde os meus pais viviam. Cleveland é uma grande cidade, mas uma vez que vivemos e deixamos Nova Iorque, podemos ir para qualquer sítio! Nada mais interessa e o sítio onde se está deixa de ser uma preocupação [risos]. Eu aprendi que as pessoas são as mesmas em todo os lugares. Podemos ir ao local mais fixe do mundo e vamos sempre poder encontrar parvalhões [mais risos]! É assim o mundo! Também nunca estive em nenhum lugar onde não tivesse encontrado pessoas lindas e afáveis - há apenas três cidades no planeta das quais não gosto e não lhe vou dizer quais são [mais risos]! Para mim o que interessa não é estar no sítio mais ‘in’, onde a ação acontece, como Hollywood ou Nova Iorque... Simplesmente, não me importa! Sei que a minha figura parece estranha, esquisita, talvez um pouco freak... Mas eu nunca na minha vida tentei chocar alguém, não é o meu estilo.


Ao longo dos últimos anos tem tocado com nomes como Marc Almond, Little Annie, Antony and The Johnsons, Current 93. Que forças há para continuar a atuar com 65 anos?


Bem, para mim é divertido tocar, acho que é um bom trabalho ...

...Mas a determinada altura decidiu parar. Porquê? Estava desapontada com a sua carreira?


Não, não! Quando parei, não parei de escrever música, apenas decidi deixar de atuar e de cantar. Mas esse foi o período da minha vida em que escrevi mais música em toda a minha vida. Isto não é algo fácil de se explicar, mas quando somos artistas toda a nossa vida – tudo o que vemos, ouvimos ou fazemos - acaba por desembocar na nossa arte...É tudo filtrado através dela! Estamos sempre a tentar fazer algo a partir de tudo. Eu quis parar com isso! Quis apenas viver por um pouco!

E o que determinou o seu regresso à cena musical?


[Risos] Quando parei de tocar, voltei a casa dos meus pais para cuidar deles. Para ser suportável viver lá, tive de arranjar o que fazer, certo? Então, comecei um negócio, um negócio que tinha a ver com árvores, podá-las e arranjá-las: tornei-me um escalador de árvores. Adorava aquilo, era porreiro! Tive três bons anos de negócio e um muito mau...Porque quando as coisas correm mal naquele tipo de serviço, as pessoas podem morrer ou perder um membro...Connosco ninguém morreu...Mas houve quem ficasse desmembrado e destruímos parte de uma casa com a queda de uma árvore [mais risos]. O resultado é mesmo mau quando as coisas correm mal...

...O que aconteceu depois disso?


Quando o negócio foi por água abaixo, logo no dia após esse incidente, eu liguei a toda a gente que conhecia de quando ainda andava na música e pedi para me darem aquela ‘força’ [risos]. Foi quando, finalmente, conheci Will Oldham [Bonnie ‘Prince’ Billy] e Matt Sweeney...Voltei e cá estou!

E o que é que a Baby Dee ouve para a inspirar?


Na verdade, o que mais gosto é de ouvir música ao vivo. A minha coisa preferida é ouvir alguém a tocar ou a cantar. Já fui organista numa igreja (...) e quando há oportunidade de ouvir vozes, um coro, eu adoro! Eu simplesmente A D O R O [risos]! Se me perguntarem qual é a minha maior influência, direi música antiga, renascentista e um pouco da barroca...Nunca passo muito do século XVII [risos]...Talvez seja, por isso, difícil às pessoas classificar-me.















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