Antiga fábrica da baleia da ilha de Santa Maria está à venda

Antiga fábrica da baleia da ilha de Santa Maria está à venda

 

LUSA/AO Online   Regional   23 de Ago de 2014, 14:03

As ruínas de uma antiga fábrica da baleia na ilha de Santa Maria, nos Açores, estão à venda, um património histórico que o proprietário gostava de passar para mãos oficiais.

“Neste momento quer o Governo [Regional], quer da Câmara Municipal [de Vila do Porto] ninguém se manifestou interessado”, afirmou à Lusa António Loura, procurador do atual dono da propriedade, João Delaura, que está emigrado nos Estados Unidos da América desde 1950. As ruínas da antiga Fábrica da Baleia, à venda por 280 mil euros, têm uma área total de 3.900 metros quadrados, situados na Ponta do Castelo junto ao mar. “Até agora, se calhar, recebi cinco a seis contactos [de particulares]. Sei que o João já recebeu alguns. Também uns três ou quatro contactos”, revelou o procurador, acrescentando que João Delaura gostaria que fosse alguma entidade oficial a ficar com a propriedade para preservar a memória do local. O Governo dos Açores já assumiu que pretende classificar e salvaguardar o património ligado à baleação existente em várias ilhas do arquipélago, tendo para o efeito remetido ao parlamento açoriano para apreciação uma proposta de decreto regional. Em março, o anterior secretário regional da Educação, Ciência e Cultura, Luís Fagundes Duarte, disse na comissão parlamentar dos Assuntos Sociais que o projeto contemplava um polo de investimento científico e outro industrial, para além do aproveitamento de todas as unidades industriais da baleação existentes na região e preservação dos botes baleiros. O governante considerou, na altura, que este “tem uma importância cultural e patrimonial, outrora económica, que urge preservar”. António Loura afirmou que o atual proprietário tinha um projeto de reabilitação para o local, mas entretanto “a doença atraiçoou-o e ele entendeu ser melhor pôr a propriedade à venda”, que havia adquirido à Corretora, após o encerramento da fábrica na década de 60 do século XX. No anúncio de venda, publicado em dois jornais açorianos há algumas semanas, é dito que a antiga Fábrica da Baleia é um “prédio ideal para empresa ou apoio náutico, turístico”, sendo constituída por quatro edifícios de rés-do-chão, em ruínas, utilizados para recolha de embarcações e material. Localizada na Ponta do Castelo, na Maia/Santo Espírito, a fábrica corresponde a um típico complexo baleeiro açoriano, designado por antiga Estação de Traiós de Santa Maria, acedida por um íngreme caminho pedonal, cheio de curvas fechadas. Na ilha de Santa Maria há registos da baleação a partir da década de 1890. Fonte da Secretaria Regional da Educação e Cultura adiantou à agência Lusa que o executivo "só tomou conhecimento deste assunto agora, através do anúncio nos jornais regionais, uma vez que o proprietário nunca entrou em contacto com este departamento governamental". "Há lá pouco para recuperar, mas de facto existe interesse de memória histórica", afirmou a mesma fonte, que admite uma avaliação ao património em causa, que já consta do Inventário do Património Baleeiro Imóvel dos Açores. Em 2013, o Observatório do Mar dos Açores (OMA) concluiu o Inventário do Património Baleeiro Imóvel do arquipélago, tendo identificado na altura um total de 186 edificações distribuídas pelas nove ilhas, desde vigias a casas de botes e instalações industriais, que serviram a baleação durante os século XIX e XX. O documento revela que as infraestruturas que apresentam maior número no arquipélago, e bem destacadas das restantes, são as vigias (43), as casas dos botes (23) e as rampas de varagem (33). Desde o século XIX que o Pico foi a ilha com maior número de armações (13, no total), de embarcações, capturas e volume de produção de óleo e farinhas, sendo também a ilha açoriana onde a memória baleeira é mais intensa. Alguns museus nos Açores, especialmente o emblemático Museu dos Baleeiros no Pico e nas Flores, possuem vastas coleções inventariadas de testemunhos da atividade baleeira, bem como artefactos utilizados na atividade, que teve grande importância económica na região. Relativamente à conservação deste património, o inventário indica que 57% das infraestruturas se encontram em bom estado e 62% estão atualmente a ser utilizadas.


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