Artigos de Opinião

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O ser que habitamos

Vamberto Freitas /

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Iossef Kowalevsky, esse, embarcaria por Inglaterra, aí encontrou ajuda, judeus portugueses, parece, mas resistiu a ficar. Imaginava a Palestina talvez, impossível na altura, ou o Sul, mais a sul ainda.

Maria da Conceição Caleiro, Até para o ano em Jerusalém

Poderemos falar de referenciais internacionais na literatura portuguesa não como novidade, mas como um recurso temático que hoje parece cada vez mais natural a toda uma geração que cresceu ou chegou à maturidade no novo mundo da globalização, feita realidade através de todos os meios de comunicação imagináveis, com a internet a oferecer a visita imediata e em tempo real a quase todos os recantos do mundo e circunstâncias de pequeno ou grande alcance. Saul Bellow escreveria um seus romances mais apreciados e lembrados de fundo parcialmente africano, sem o autor alguma vez ter visitado o continente, e a crítica ressentiu-se desse facto, apontando-o logo como uma das falhas que passariam mais tarde a ser denominadas como politicamente incorretas, sem que isso, mesmo assim, desfizesse a grandeza de um livro hoje canónico no mundo anglo-saxónico. A verdade é que a arte tem os seus protocolos muito próprios, e hoje os escritores não só têm as imagens históricas do passado e dos seus dias em sua frente a cada instante, como se tornou impossível pensar a nossa rua retirada desse vasto contexto planetário. Por outro lado, quando se escreve sobre o nosso torrão natal poderemos encontrar as raízes que se estendem por territórios longínquos, ligações de sorte e sangue a outros que connosco pisaram terra comum, que connosco beijaram a vida e choraram a morte. A qualquer momento no decorrer das coisas, o aparecimento de uma única pessoa ou acontecimento poderá despoletar a imaginação, ou mais ainda a revisão da história, a memória do que permanecia afundado no tempo esquecido, a rede interligada a tudo que pensávamos improvável ou impossível. Até para o ano em Jerusalém, o romance de Maria da Conceição Caleiro, publicado há poucos dias, é essa curiosa teia de enredos e tragédias humanas, que começam na Polónia em 1939, e acabam em Lisboa, no Brasil e nos Açores. Não há mais ilhas no sentido etimológico do termo – a História chega inevitavelmente pelo mar e pelo ar, os seres humanos carregam consigo passado, presente e futuro, e tudo (nos) acontece para além de línguas faladas ou encontros pré-destinados, de religiões identitárias, de vontades sociais ou noções culturais. Os judeus estão nas ilhas açorianas desde o início, e em números muito superiores ao que uma ou duas famílias contemporâneas mais conhecidas entre nós fariam supor. A Segunda Guerra Mundial fez com que muitos deles se refugiassem temporariamente na terra nacional que um dia foi a sua pátria, só que de Lisboa aos Açores a viagem era ainda mais complicada e perigosa, mas o romance de Conceição Caleiro relembra-nos que, apesar de tudo, a linha de sangue e sentimento fez-se perpetuar. A literatura tem esse outro mérito – reconstituir histórias que parecem meramente pessoais, mas afinal estão alinhadas num longo fio de presença e vida ancestrais.

Até para o ano em Jerusalém acaba na cidade sagrada, mas começa em Lisboa. Maria Luís Kowalevsky, artista plástica e vivendo dias incertos quando descobre que está infectada com HIV, tem um breve caso com o historiador universitário Vicente, a quem tinha falado superficialmente no seu nome estrangeiro (polaco), mas não sabia nada de como o tinha adquirido. Tinha uma carta de uma avó açoriana, de famílias de bem, que tinha saído da sua ilha S. Miguel após ter sido engravidada por outro que não o seu marido. De resto, era o silêncio. A história é contada numa analepse por uma amiga, numa narrativa toda recortada ou constituída por informações dispersas e que nos parecem desconexas, conversas incompletas tiradas de telefonemas e de conversas ao acaso, mistério tanto para o leitor como para a narradora. Quando Vicente vai para o Rio de Janeiro leccionar temporariamente, fugindo ele próprio de um casamento instável, conhece um colega, de nome David Kowalevsky, judeu descendente de imigrantes que lá se tinham estabelecido há muito, e de outros que haviam chegado como refugiados do Holocausto no velho continente. Vicente fala-lhe logo da sua “amiga” em Lisboa. Convidado por este seu colega da faculdade a partilhar algumas festas em sua casa, conhece aí muita gente activa na comunidade judaica local, inclusive seu avô, de nome Iossef Kowalevsky, natural de Danzig, a cidade internacional desde sempre disputada pela Polónia e Alemanha, a primeira vítima da brutal invasão hitleriana, outrora centro de uma outra e grande comunidade judaica. Iossef tinha percorrido um longo caminho na fuga aos nazis após o começo da guerra em 1939. Por acasos dessas conhecidas viagens atribuladas e navios à procura de portos amigos, ou pelo menos não de todo hostis, desembarca numa ilha açoriana, onde permanece algum tempo enquanto espera pela saída rumo ao Brasil, agora na companhia de ilhéus numa embarcação que havia ser fretada por famílias ricas de cá. Iossef tinha guardado esse segredo, para só o revelar na hora da morte. O mistério de Maria Luís começava a revelar-se, o seu nome até então desconhecido recupera a razão de ser, faz parte de uma história não de amor, mas do desejo de um judeu e de uma açoriana linda mas infeliz, vítima de um casamento que tinha as tradicionais visitas às Furnas como aventura maior. Vicente transmite toda esta informação recolhida no Rio de Janeiro, e a narradora organiza, na companhia de Maria Luís e outros amigos, uma viagem a S. Miguel, à descoberta das raízes e da terra, conhecendo e recolhendo mais informação de algumas pessoas que ainda se lembravam do caso. Pouco depois chega David, possivelmente primo desconhecido de Maria Luís, e o prazer puro do seu avô dá lugar agora a uma história de amor e total cumplicidade, incestuosa ou não. Para o ano, disse David a Maria Luís, em Jerusalém, aonde chegam e se amam num conhecido hotel da cidade.

Uma leitura açoriana deste romance, aventuro aqui, poderia levar a um certo simbolismo do esquecimento das nossas próprias origens, ou pelo menos de parte significante delas. Quem chegou às ilhas no início permanece uma questão quase em aberto, a metáfora do judeu errante em nada alheio à nossa sorte de ilhéus, o povo em constante embarque e regressos vários. De qualquer modo, se Até para o ano em Jerusalém é uma representação ficcional em parte baseada em factos ou tão-só imaginários, não afecta minimamente a plausibilidade da sua trama. No entanto, creio ter algum significado a autora, em notas diversas nas últimas páginas do livro, agradecer a algumas individualidades conhecidas entre nós pelos seus estudos açorianos, pelo diálogo vivo ou escrito em que forneceram dados, “em torno dos refugiados judeus no espaço português aquando da Segunda Guerra Mundial”, no Rio de Janeiro, e muito especificamente sobre a história do povo hebraico aqui nas ilhas. Por outro lado, não será muito comum incluir na própria narrativa ilustrações diversas, como uma sequência de fotos da Grande Sinagoga de Danzig, antes e depois da sua destruição, ou um facsímile de uma página de um jornal da época. Outras referências, que colocam este romance algures entre a realidade e a ficção, recorrem a obras e objectos em museus conhecidos do mundo, e que perpetuam este período da história judaica na Europa. A sua linguagem, uma vez mais, obedece à forma estrutural da narrativa – cenas dispersas envolvendo os seus personagens, geografias à primeira vista distantes em tudo, a alegria e segurança do Novo Mundo em contraste com a barbaridade e vulnerabilidade de tudo e todos, em guerra ou em paz, nas terras frias e cansadas do Norte. Um passo descritivo do que sente a narradora na sua visita às Furnas está, do mesmo modo, carregado de simbolismo e metáforas da nossa condição a meio Atlântico.

“Aquela terra – diz ela a determinada altura – perturbava. Sempre a bulir lá por dentro, lá pro fundo, e nem se via sempre. Nunca tinha visto nada assim. Sentimentos tão extremos, amor e ódio. Ou os dois juntos, par a par. Fermentava, massa lêveda, adâmica. Vagarosa atmosfera enredada. Chuva miúda, dava vício. Calor húmido, tecto baixo. Transpirávamos. Fez partir muitos, a outros amarrou como as presas de um polvo maldito de tantos braços que se estendiam sem soltar quem foi uma só vez apanhado e por lá foi ficando. Sentia-me já possuída. A certa altura, num dado ponto alto da estrada, do alto, num momento de céu aberto, via-se mar dos dois lados. Senti as lágrimas, por nada. A fragilidade do lugar”.

Até para o ano em Jerusalém deve ser lido pelo muito mais do que nos devolve nas suas páginas, particularmente pelo que me parece ser um dos seus temas predominantes – a nossa identidade por entre a catástrofe, a memória da vida e da morte, do amor e do ódio, de quem e como somos. Só que a terra açoriana é visitada aqui com muita originalidade e olhos de fora – que vêem quase tudo o que nos escapa aqui ao lado, o paraíso e o inferno desafiando-se eternamente.

Maria da Conceição Caleiro, Até para o ano em Jerusalém, Lajes do Pico,

Companhia das Ilhas, 2015.