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A Escrita Criativa de Darrell Kastin: "He is Charmed"

Lélia Nunes /

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A Escrita Criativa 

Aos poucos o inverno rigoroso se despede, derreteram-se os “capuchos” e os flocos de neve que debruaram as montanhas, cristalizaram as ribeiras, pintaram de branco os campos, os telhados de cinquenta e seis municípios de Santa Catarina e até o majestoso Cambirela, no continente em frente, ficou coberto de neve. Coisa nunca vista pelas bandas insulares e litorâneas catarinenses, deixando o ilhéu aturdido com a novidade climática e o Brasil incrédulo. Até parece coisa das bruxas, segredavam abismados.

Já é Primavera, denunciam as primeiras floradas, coloridas grinaldas de flores, iluminadas e cheias de sol, que bem lembram uma pintura do catarinense Willy Zumblick que, se vivo fosse, faria 100 anos, no dia 26 de Setembro. Foram setenta e cinco anos dedicados às artes plásticas. Uma produção intensa onde sobressai o seu incontestável talento, a sua assinatura inconfundível ao dar vida às formas e personagens, deixando fluir a emoção e encantando-nos com o realismo mágico de sua criação.

Não tinha a intenção de me alongar neste preâmbulo e, muito menos, me afastar do tema anunciado no título – o realismo mágico da escrita criativa de Darrell Kastin que conheci em julho, durante a realização do Exploring the Portuguese Diaspora in InterDisciplinary and Comparative Perspectives;An Internacional Conference na Butler University, em Indianápolis, capital do estado norte-americano de Indiana. A Conferência teve o mérito de promover um intenso convívio académico e intertextualidades literárias na diversidade de vozes, revelando escritas criativas paridas nas comunidades da diáspora, como a do californiano Darrell Kastin, filho de mãe açoriana da Ilha do Faial e de pai russo. Casado com a açoriana Elisabeth Figueiredo da Ilha de Santa Maria. Com certeza, por todos estes laços afetivos, carrega o mar das ilhas no azul do olhar e o verde da paisagem insular no sorriso cativante.

Regressei à Florianópolis trazendo na bagagem um exemplar autografado do seu livro The Conjurer & Other Azorean Tales, publicado pela UMass Dartmouth, Massachusetts em 2012. Uma vez mais, surpreendi-me com um luso-americano que escreve como se açoriano fosse, embriagado pela paisagem e pelos tipos humanos que encontrou em suas idas e vindas aos Açores e nas muitas histórias que ouviu de sua mãe e de seus avós. Assim, é a história de uma família sempre sendo escrita e tecida por gerações, cada uma contada com seu jeito de ser e estar no mundo, respondendo pela admirável arquitetura da nossa memória.

Nas minhas andanças pelas Ilhas míticas ou, aqui, na Ilha de Santa Catarina, na leitura de autores que dão voz à literatura produzida nos Açores, compreendi o papel significativo que desempenham na formação da identidade açoriana. Uma contribuição que se alarga por outras margens, que se entrecruza com a escrita da emigração e, sobretudo, uma literatura de luso-descendentes, sobejamente, referenciados por Onésimo Teotónio de Almeida, Vamberto Freitas, Diniz Borges e pelo decano da crônica da diáspora luso-americana Eduardo Mayone Dias.

Darrell Kastin pertence a uma geração de escritores luso-descendentes, de raíz açoriana, que está a conquistar seu espaço na literatura americana escrevendo, obviamente, em inglês, sobre temas atinentes a vida, as tradições, as crenças de seus ancestrais e em vivências múltiplas nos relatos dos familiares emigrados na América. Inegável a representação identitária e a transnacionalidade cultural diaspórica expressa na sua escrita criativa luso-americana.

Já no seu romance de estréia A Ilha Desconhecida, de 2009, ambientado no cenário mítico das Ilhas do Pico e Faial, traz um enredo calcado no realismo mágico, onde abundam lendas, superstições, magia, mistério e romance. Uma produção com marcas de intensa açorianidade a falar desse universo trino: terra insular, cerco do mar, crenças e emigração.

The Conjurer and Other Azorean Tales, o novo livro de Darrell Kastin, publicado em 2012, apresenta uma coletânea de dezoito contos urdidos de forma extraordinária no cotidiano das Ilhas que o autor conhece tão bem por ter lá vivido nos idos 1987 e 1988. Com sua incrível capacidade de fabulação, seja a falar de mundividências, seja no conduzir por enredos de alumbramento, Darrell atravessa a fronteira do irreal, do universo onírico, envolvendo o leitor no encantamento das Ilhas, na sua magia telúrica e fantástica que mexe com o imaginário, resgatando tempos imemoriais que persistem no carrossel do tempo. Narrativas interligadas por um fio condutor que une, em sentida cumplicidade, o narrador e o autor que se permite certas intromissões, revelando suas vozes íntimas ou desnundando seu fluxo de consciência, sua alma. Narrativas interligadas por personagens que pertencem a um lugar ou a um mesmo espaço geográfico – as nove ilhas açorianas do Atlântico Norte.

Ao ler seus contos impressionou-me, vivamente, o conhecimento sobre o fabulário açoriano, componente do patrimônio simbólico, universo povoado por mitos e lendas. Engenharias imaginárias, transmitidas no correr do tempo e perpetuadas pela oralidade tradicional. Concluí que Darrell Kastin, não se limitou a regressar à terra de seus ancestrais, ir ao encontro de seus “eus” vincados em solo vulcânico. Foi muito além, na ânsia de descobrir, de mais saber. Mergulhou na intimidade das ilhas, investigou, conheceu e muito ouviu do povo – pescadores, baleeiros, gente simples, intelectuais, artistas, enfim homens e mulheres – ilhéus dos Açores, aqui transvestidos em personagens de seus contos.

Contos que, embora inspirados no sobrenatural, no fantástico, são muito leves na escrita escorreita, cheios de sabor, líricos, ternos, com a irreverência própria do ilhéu ou de um “americano” com imensa afinidade com a cultura açoriana, tal qual Darrell Kastin.

Em The Conjurer, o conto de abertura, ambientado em Gloucester, Massachusetts, sobressai a terna relação entre os dois personagens: o avô Valdemar, o mágico, a ensinar ao neto Jorge, o aprendiz, os mistérios do Universo, numa outra dimensão e, também, o conhecimento de suas origens insulares na a Ilha do Pico, e seus múltiplos significados: “Com esperança, uma mente aberta, e imaginação, nós podemos recuperar um pouco da vida passada, cacos esquecidos da memória, sonhos perdidos.” É o único conto cujo enredo abraça a memória dos afetos do passado - a terra que ficou para trás, ao hoje e ao futuro na busca do conhecimento do espaço sideral, na incessante tentativa de desvendar os mistérios do universo, um tempo atemporal numa outra dimensão, mundos paralelos – o universo para onde o Vô Valdemar, o mágico, tinha ido. Somente o neto Jorge sabia e compreendia.

Enquanto em Dona Leonor’s Dress o maravilhoso vestido passeia, baila pela avenida, praça, cafés da elegante cidade da Horta, na Ilha do Faial, flana até o “narrador”, onde livres dançam no ar; em A Night on the Town (p.79) o conto sobrenatural passado na freguesia de Santa Luzia, na Ilha do Pico, narra a história da mulher Rosa que roubou o esqueleto do marido Guilherme do cemitério e depositou na cama do casal. Os amigos levam o esqueleto de Guilherme para as noitadas de bar em bar e vão perdendo seus ossos noite após noite. Resta, afinal, apenas “crânio sorrindo empoleirado em cima de uma prateleira alta atrás do bar”.

Esta convivência entre vivos e mortos que se encontram no cemitério passeiam por vilas e bares como o personagem Gaspar Henriques do último conto dessa coletânea “Night Magic”, tão bem explorada no realismo fantástico de Darrell Kastin, está presente em Incidente em Antares, de 1971, do escritor brasileiro Érico Veríssimo, onde sete defuntos vagam pela cidade vasculhando a intimidade dos parentes e amigos vivos, revelando a podridão moral da sociedade.

Por último, confesso o meu espanto, ao deparar na página 37 com o conto “The Witches and the Fisherman”, uma fábula que faz parte do imaginário bruxólico da Ilha de Santa Catarina, aqui recolhida por Franklin Cascaes. Uma estória de pescador lá Povoação, Ilha de São Miguel, que Darrell transformou num bonito conto com desfecho na praia Formosa da Ilha de Santa Maria. Fica o mistério, afinal – “as bruxas estão dançando”, é o que se diz quando chove e faz sol ao mesmo tempo. Ana Maria Sofia, a jovem que socorreu o pescador Miguel e por quem se apaixonou, sorri cúmplice. Ela sabe que as bruxas os reuniu. Um conto que veio de longe, das ilhas dos nossos avós, atravessou o Atlântico num barco alado dos povoadores açorianos do Século XVIII. É o sortilégio das Ilhas em brumas amortalhadas que habita em nós, um fadário definitivo que Darrell Kastin revela entre histórias reais ou irreais a desassossegar a alma da gente.

The Conjurer & Other Azorean Tales para se ler com muito prazer e se deixar levar por caminhos do insondável, do mundo encantado tal qual o seu autor Darrel Kastin em seu realismo mágico.

Na margem de cá damos a isso o nome de “Bruxo”.

Na margem de lá, ao norte do Equador: “He is charmed”.

O que dá no mesmo.