Sociedade

Memória dos Dabney no Faial em ruínas

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Livro Os Dabney

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João Garcia tem 10 anos, vive no Faial e já ouviu falar no Cônsul Dabney, porque é o nome da rua da sua escola, no centro da cidade da Horta, mas desconhece de quem se trata.
 

Há quatro anos que João Garcia, aluno do primeiro ciclo no ensino básico na Escola António José d’Ávila, atravessa todos os dias a Rua Cônsul Dabney para ir às aulas, mas nunca ninguém lhe explicou o significado daquela toponímia.

Este desconhecimento é generalizado a uma grande parte dos cerca de 15 mil habitantes do Faial, onde esta família se instalou há mais de dois séculos.

A família Dabney, oriunda de Rhode Island, chegou ao Faial em 1804, quando John Bass Dabney foi nomeado Cônsul Geral dos EUA no Faial pelo presidente Thomas Jefferson.

Os Dabney permaneceram na ilha durante cerca de sete décadas e regressaram depois aos EUA, não existindo actualmente ninguém no Faial que assuma ligações familiares com eles.

A rua baptizada com o nome do antigo diplomata dos EUA não representa apenas a homenagem a uma das famílias que mais impacto teve na vida económica, social e cultural da ilha, é também nesta artéria que se encontra dois dos mais importantes marcos arquitectónicos que assinalam a passagem da família Dabney pelo Faial.

É na Rua Cônsul Dabney que se encontra The Cedars House, uma imponente casa transformada na residência oficial do presidente da Assembleia Legislativa dos Açores, e a Fredónia, um edifício onde funciona actualmente uma creche e infantário.

Estes não são os únicos edifícios mandados construir pelos Dabney no Faial, mas são os que se apresentam em melhores condições, já que a Bagatelle, outra moradia da família, está abandonada há vários anos e a Casa Dabney, no Monte da Guia, uma zona de paisagem protegida, está transformada em ruínas.

Mário Mesquita, administrador da Fundação Luso-Americana (FLAD), defende que um destes imóveis poderia ser transformado em museu para perpetuar o legado deixado pela família Dabney nos Açores.

“Faz sentido fazê-lo, não apenas em torno dos Dabney, mas também procurando estabelecer a ligação dos Açores a Boston e a Massachussets”, afirmou, em declarações à Agência Lusa.

Mário Mesquita salientou que os Dabney não se limitaram à actividade diplomática, acabando por ter um “papel importante no plano económico”, nomeadamente quando se lançaram nos negócios, em especial, no comércio do carvão e do vinho.

Dessa forma, transformaram a pequena ilha do Faial num autêntico “entreposto comercial” quando, no século XIX, foram interrompidas as relações comerciais entre os EUA e a Inglaterra.

Esta família, que gerou quatro cônsules norte-americanos, esteve também ligada à actividade da baleação nos Açores, introduzindo no arquipélago algumas das tradições dos baleeiros da Nova Inglaterra.

A importância dos Dabney no desenvolvimento sócio-económico dos Açores, mas também nas relações entre Portugal e os EUA, está patente nos ‘Anais da Família Dabney’, uma obra dividida em três volumes, com 600 páginas cada.

Os ‘Anais’ incluem correspondência trocada entre familiares que se encontravam nos dois lados do Atlântico e documentos da época, numa compilação de Roxana Dabney.