Ex-combatentes da guerra colonial lembraram lágrimas e alegrias das matas angolanas

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Meia centena de ex-combatentes açorianos na guerra colonial assinalou sábado à noite 49 anos da “entrada para a tropa” (1960), 48 da partida para Angola (1961) e o facto de todos fazerem, este ano, 70 anos.
 

A freguesia dos Biscoitos (Praia da Vitória - Ilha Terceira) acolheu os ex-combatentes para uma missa em memória dos que “tombaram nos confrontos armados” e para um jantar onde recordaram “os melhores e os piores momentos de 27 meses de guerra”.

Manuel Isac Fagundes, soldado corneteiro, lembra-se bem da partida “silenciosa” onde reinava a apreensão “por não ignorarmos de todo o que lá se passava apesar da censura” [às notícias].

“Íamos ouvindo, à boca pequena, algumas coisas do que se passava com o paquete Santa Maria e depois rebentou aquilo lá em Angola. Partimos com o medo de não voltarmos”, assegura Manuel Isac Fagundes.

Para o navio os da 110 subiram direitos à guerra “com a imagem de Nossa Senhora de Fátima no regaço” transportada por um rapaz de São Mateus. Foram ao santuário de Fátima rezar.

"Depois da missa cruzámo-nos com uma velhinha que nos aconselhou rezar à 'Senhora' garantindo que não ia morrer nenhum”, acrescenta.

Era a mãe “da pastorinha Lúcia” que falhou por pouco as previsões: “enterramos lá um, debaixo de uma laranjeira junto de outros cinco da companhia 111” que era do continente português porque “nenhum açoriano da 110 morreu”, recorda Manuel Isac Fagundes.

Pior sorte tiveram os da companhia 194 que viram “tombar nove camaradas açorianos e dois continentais”, relembra Veríssimo Toste Castro.

À conversa junta-se Manuel Martins Coelho, homem de sorriso aberto, preciso nas memórias, lembra-se de ter “andado três dias e três noites atrás do Jonas” [Savimbi].

Manuel Martins Coelho passou por várias situações difícieis. A pior “foi na Pedra Verde": "Éramos 130 homens e tinha um turra com uma metralhadora lá no cimo de um monte”.

"Se viéssemos todos de frente tinha arrumado connosco. A coisa estava feia. Então um dos nossos, um pechinchinho (pequenino, baixinho) das Quatro Ribeiras subiu e arrodeou o monte e capturou-o”.

Momentos maus tidos como “duros” com as balas a passarem “rentes à cabeça”, ocasiões em que “não se pensa em nada” por vezes “na família” mas principalmente “sem salvar a pele”, porque alturas houve em que “pensamos que não vínhamos” sublinham todos.

“Estive quatro Verões na guerra. O melhor da minha juventude”, lamenta-se Veríssimo Toste Castro.

Nem as cartas amenizavam as “saudades”. Por vezes “mandavam-se umas gravações" que conseguiam fazer chegar ao Rádio Clube de Angra e os familiares sempre “conseguiam ouvir as nossas vozes”.

Depois do desfile na chegada a Luanda, o acantonamento no quartel do Grafanil e um novo desfile, mas agora pelas matas do Ambrizete, Bessa Monteiro, Lufico, Quibala do Norte e Tambouco.

Fome, sede, mosquitos, medo, tiros, bazucas, artilharia, aviação e bombas, lágrimas, solidariedade para com os menos afortunados, terços e orações, Padre-nosso e ave-marias e saudade marcavam esses dias nas matas.

Finalmente o regresso, “com a cidade [Angra do Heroísmo] toda à nossa espera. O campo da bola cheio como um ovo. E como não tínhamos nenhum morto na caderneta ainda foi melhor”, confessam.

“A amizade entre nós é eterna. Não sei dizer porquê, mas é”, garantem por Deus. Talvez porque, acrescentam, “os maus momentos acentuam os laços” ou porque “a nossa educação à antiga realça mais a solidariedade”, dizem.

Questionam “o esforço feito pela juventude de um país pobre” para depois “entregarem aquilo daquela maneira”.

Não discordam da independência das colónias “porque aquilo era deles”, justificam, mas defendem que “deviam, como fazem em outros lugares, ter posto lá tropa internacional”.

Evitavam-se assim, dizem, “as mortandades que vieram a seguir, bem piores que as do nosso tempo. Não tem mesmo comparação”, garantem.

“A guerra de guerrilha pode, por um acaso, não matar. Mas mói, mói, mói e fica eternamente a moer”.

“Durante muito tempo levantava-me da cama em posição de combate e a vassoura servia de Mauser ou G3 (espingardas”, diz Manuel Martins Coelho.

“Eram os braços e a voz de minha mãe que me acalmavam e finalmente dormia sossegado”.

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