Academia das Artes apresenta "Atelier"
Regional | 2008-06-20 22:43
A Academia das Artes dos Açores tem patente, na sua sala principal, a exposição “Atelier”, composta por mais de setenta trabalhos realizados por diversos artistas ao longo do primeiro ano de funcionamento do atelier de gravura da academia, o único existente na ilha de São Miguel.
Os trabalhos em exposição são da autoria de Ana Roseira, Beatriz Rodrigues, Catarina Castelo Branco, Isabel Silva Melo, José Cruz, Ludomila Esteves, Manuela Braga, Maria João Castro, Martim Cymbron, Nina Medeiros, Paula Mota, Sofia Brito e Urbano, artistas, arquitectos e designers que passaram pelo atelier, quer durante o workshop de gravura, orientado por Bartolomeu Cid dos Santos, referência nacional na utilização desta arte plástica, quer ao longo de todo o ano, em utilização livre.
A exposição tem como principal objectivo a divulgação da mais recente valência da Academia das Artes dos Açores - o atelier de gravura -, daí que não haja uma organização conceptual das obras mas sim a preocupação em mostrar os resultados que se podem atingir com a utilização dos equipamentos disponíveis neste atelier de gravura.
A técnica da gravura está claramente em evidência na exposição, uma vez que a acompanhar as obras estão três faixas que explicam sumariamente as técnicas utilizadas: monótipo, água forte e água-tinta.
A criação deste atelier, há muito ambicionado pela Academia das Artes, contou com a colaboração de Bartolomeu Cid dos Santos, que idealizou todo o projecto e acompanhou o processo de montagem, e só foi possível devido ao apoio da Direcção Regional da Cultura, que ao abrigo do projecto ARTCA financiou as obras de adaptação do espaço e a aquisição de equipamentos necessários para o seu pleno funcionamento.
O atelier situa-se no edifício da Academia da Artes e contém uma prensa, uma caixa de água-tinta e uma caixa de extracção de ácidos, assim como diversos ácidos e papéis específicos para este tipo de trabalhos.
A Academia das Artes dos Açores oferece cursos de iniciação e desenvolvimento na área da gravura, e a propina paga garante a disponibilidade de todo o equipamento e materiais necessários.
Apesar de já estar anteriormente programada, esta exposição pretende também ser um agradecimento e uma homenagem a Bartolomeu Cid dos Santos, falecido recentemente.
A actual direcção da Academia das Artes tem intenção de continuar a apostar na formação pedagógica em áreas diferentes, nomeadamente através da criação de ateliers de serigrafia e multimédia, de forma a que a academia esteja ao serviço da cultura e dos artistas da Região.
Até 5 de Julho, a Academia das Artes dos Açores tem as portas abertas a todos os que estejam interessados em apreciar, ou mesmo adquirir, as gravuras realizadas no atelier durante 2007 e 2008.
A exposição marca o primeiro ano de funcionamento do atelier de gravura da academia
Como correu o primeiro ano de funcionamento do atelier de gravura?
Quando montámos o atelier, com a ajuda do Bartolomeu Cid dos Santos, realizámos um workshop e em exposição estão alguns dos trabalhos produzidos neste evento. Vários artistas foram convidados, alguns aceitaram, outros não. Foi muito interessante, as pessoas ficaram muito entusiasmadas e empolgadas. Depois, leccionei um curso de gravura, que contou com bastantes alunos. A seguir a este curso houve uma quebra... Há a noção, cá, de que tudo tem que ser gratuito. Todo o material disponível no atelier é extremamente caro e vem de Inglaterra. E a qualidade da gravura passa pela qualidade dos produtos utilizados: com mau material o resultado final não será tão poderoso, tão forte. Tem que haver algum retorno desse investimento por parte da academia. O primeiro curso resultou muito bem, mas o segundo já não contou com tantos alunos. Surgiu, assim, a ideia de alugar o espaço a quem já domina a técnica, para que possa utilizá-lo à sua vontade, paralelamente com os cursos, que vamos continuar a oferecer.
Que actividades pretendem realizar no atelier, no futuro?
Vamos trabalhar mais a nível de workshops, convidando artistas que dominam a técnica. Em Janeiro vamos tentar realizar um workshop de gravura com técnicas diferentes das que têm sido utilizadas, que produzem o mesmo efeito mas que não incluem o manuseamento de ácidos, porque é prejudicial à saúde estar sempre a trabalhar com ácidos. Temos intenção de convidar especialistas estrangeiros para realizar workshops dedicados principalmente a artistas. Eu própria vou ser aluna, porque também quero desenvolver a minha técnica, que aprendi na universidade durante um ano ou dois mas que não faz parte da minha formação específica.
Esta exposição destaca mais a técnica do que a mensagem?
O principal objectivo da exposição é divulgar esta valência da Academia das Artes dos Açores. Nos trabalhos apresentados, cada artista transmite a sua mensagem e tem os seus traços pessoais. Por exemplo, artistas como a Paula Mota, o Urbano, e outros, têm características que as pessoas conhecem e que permitem identificar o trabalho. Estes artistas desenvolveram o seu trabalho numa vertente diferente – na gravura – e é muito interessante ver o efeito das suas ideias numa técnica diferente da que utilizam habitualmente.
Que papel desempenhou Bartolomeu Cid dos Santos na implementação do atelier?
Ele foi extremamente importante. Quando vim para a direcção da academia tinha acompanhado o processo de criação deste espaço e a primeira actividade que quis desenvolver foi o workshop com o Bartolomeu. Ele já tinha cá vindo e conhecia a academia, e através de troca de correio electrónico, com desenhos e pequenos esboços, ele conseguiu idealizar a organização do material no espaço destinado ao atelier. Ele montou vários ateliers por todo o país, penso que este foi o último…
O facto de Bartolomeu Cid dos Santos ter falecido recentemente dá outro significado à exposição?
Já tínhamos a ideia de fazer a exposição, mas na inauguração da exposição, em sua homenagem, fiz uma pequena faixa com as fotografias do workshop, que foi muito útil para mim porque fiquei responsável pelo atelier e estava completamente esquecida das técnicas. Ele fez este esforço em vir cá, e penso que foi muito importante também para ele, porque adorava gravura e era mesmo considerado o “senhor da gravura” a nível nacional. Esta exposição é como um “obrigado”, porque, sem ele, não conseguiríamos montar o espaço.
Como foi o seu percurso académico?
Estudei nos Estados Unidos da América, onde as escolas têm uma filosofia própria, principalmente na área artística. Na minha universidade tínhamos um treino geral em todas as áreas. O meu curso não é de Pintura nem de Escultura, é de Artes Plásticas, que na altura não existia em Portugal. O meu trabalho reflecte um pouco isso, tanto posso pintar como fazer gravura, como fazer fotografia: estou à vontade em várias vertentes. Gosto de versatilidade e de explorar meios diferentes. Estou sempre à procura de novos desafios, e isso tem muito a ver com a minha formação.
O que a fez escolher este destino?
Sempre fui fascinada pelos Estados Unidos, mas quando lá cheguei... As universidades, a nível de equipamentos, são óptimas, mas a vivência não me entusiasmou. Vivi lá 15 anos e nunca mais regressei... não é uma sociedade que me atraia muito. Mas decidi ir para lá estudar pelo facto da arte não ser tão conservadora, ser mais radical e ser muito respeitada. Aqui continuo a ficar triste e decepcionada com a relação que a sociedade mantém com os artistas: o trabalho não é respeitado e continua a ser visto como um hobby.
O que mudou, desde essa altura, na arte em Portugal?
Há mais artistas, há mais exposições, há mais eventos... a minha desilusão continua a ser o público, que não vai aos sítios. Há tanta oferta – coliseu, teatro, biblioteca, museu, galerias – e são sempre as mesmas pessoas a frequentar esses espaços.
A exposição tem como principal objectivo a divulgação da mais recente valência da Academia das Artes dos Açores - o atelier de gravura -, daí que não haja uma organização conceptual das obras mas sim a preocupação em mostrar os resultados que se podem atingir com a utilização dos equipamentos disponíveis neste atelier de gravura.
A técnica da gravura está claramente em evidência na exposição, uma vez que a acompanhar as obras estão três faixas que explicam sumariamente as técnicas utilizadas: monótipo, água forte e água-tinta.
A criação deste atelier, há muito ambicionado pela Academia das Artes, contou com a colaboração de Bartolomeu Cid dos Santos, que idealizou todo o projecto e acompanhou o processo de montagem, e só foi possível devido ao apoio da Direcção Regional da Cultura, que ao abrigo do projecto ARTCA financiou as obras de adaptação do espaço e a aquisição de equipamentos necessários para o seu pleno funcionamento.
O atelier situa-se no edifício da Academia da Artes e contém uma prensa, uma caixa de água-tinta e uma caixa de extracção de ácidos, assim como diversos ácidos e papéis específicos para este tipo de trabalhos.
A Academia das Artes dos Açores oferece cursos de iniciação e desenvolvimento na área da gravura, e a propina paga garante a disponibilidade de todo o equipamento e materiais necessários.
Apesar de já estar anteriormente programada, esta exposição pretende também ser um agradecimento e uma homenagem a Bartolomeu Cid dos Santos, falecido recentemente.
A actual direcção da Academia das Artes tem intenção de continuar a apostar na formação pedagógica em áreas diferentes, nomeadamente através da criação de ateliers de serigrafia e multimédia, de forma a que a academia esteja ao serviço da cultura e dos artistas da Região.
Até 5 de Julho, a Academia das Artes dos Açores tem as portas abertas a todos os que estejam interessados em apreciar, ou mesmo adquirir, as gravuras realizadas no atelier durante 2007 e 2008.
A exposição marca o primeiro ano de funcionamento do atelier de gravura da academia
Como correu o primeiro ano de funcionamento do atelier de gravura?
Quando montámos o atelier, com a ajuda do Bartolomeu Cid dos Santos, realizámos um workshop e em exposição estão alguns dos trabalhos produzidos neste evento. Vários artistas foram convidados, alguns aceitaram, outros não. Foi muito interessante, as pessoas ficaram muito entusiasmadas e empolgadas. Depois, leccionei um curso de gravura, que contou com bastantes alunos. A seguir a este curso houve uma quebra... Há a noção, cá, de que tudo tem que ser gratuito. Todo o material disponível no atelier é extremamente caro e vem de Inglaterra. E a qualidade da gravura passa pela qualidade dos produtos utilizados: com mau material o resultado final não será tão poderoso, tão forte. Tem que haver algum retorno desse investimento por parte da academia. O primeiro curso resultou muito bem, mas o segundo já não contou com tantos alunos. Surgiu, assim, a ideia de alugar o espaço a quem já domina a técnica, para que possa utilizá-lo à sua vontade, paralelamente com os cursos, que vamos continuar a oferecer.
Que actividades pretendem realizar no atelier, no futuro?
Vamos trabalhar mais a nível de workshops, convidando artistas que dominam a técnica. Em Janeiro vamos tentar realizar um workshop de gravura com técnicas diferentes das que têm sido utilizadas, que produzem o mesmo efeito mas que não incluem o manuseamento de ácidos, porque é prejudicial à saúde estar sempre a trabalhar com ácidos. Temos intenção de convidar especialistas estrangeiros para realizar workshops dedicados principalmente a artistas. Eu própria vou ser aluna, porque também quero desenvolver a minha técnica, que aprendi na universidade durante um ano ou dois mas que não faz parte da minha formação específica.
Esta exposição destaca mais a técnica do que a mensagem?
O principal objectivo da exposição é divulgar esta valência da Academia das Artes dos Açores. Nos trabalhos apresentados, cada artista transmite a sua mensagem e tem os seus traços pessoais. Por exemplo, artistas como a Paula Mota, o Urbano, e outros, têm características que as pessoas conhecem e que permitem identificar o trabalho. Estes artistas desenvolveram o seu trabalho numa vertente diferente – na gravura – e é muito interessante ver o efeito das suas ideias numa técnica diferente da que utilizam habitualmente.
Que papel desempenhou Bartolomeu Cid dos Santos na implementação do atelier?
Ele foi extremamente importante. Quando vim para a direcção da academia tinha acompanhado o processo de criação deste espaço e a primeira actividade que quis desenvolver foi o workshop com o Bartolomeu. Ele já tinha cá vindo e conhecia a academia, e através de troca de correio electrónico, com desenhos e pequenos esboços, ele conseguiu idealizar a organização do material no espaço destinado ao atelier. Ele montou vários ateliers por todo o país, penso que este foi o último…
O facto de Bartolomeu Cid dos Santos ter falecido recentemente dá outro significado à exposição?
Já tínhamos a ideia de fazer a exposição, mas na inauguração da exposição, em sua homenagem, fiz uma pequena faixa com as fotografias do workshop, que foi muito útil para mim porque fiquei responsável pelo atelier e estava completamente esquecida das técnicas. Ele fez este esforço em vir cá, e penso que foi muito importante também para ele, porque adorava gravura e era mesmo considerado o “senhor da gravura” a nível nacional. Esta exposição é como um “obrigado”, porque, sem ele, não conseguiríamos montar o espaço.
Como foi o seu percurso académico?
Estudei nos Estados Unidos da América, onde as escolas têm uma filosofia própria, principalmente na área artística. Na minha universidade tínhamos um treino geral em todas as áreas. O meu curso não é de Pintura nem de Escultura, é de Artes Plásticas, que na altura não existia em Portugal. O meu trabalho reflecte um pouco isso, tanto posso pintar como fazer gravura, como fazer fotografia: estou à vontade em várias vertentes. Gosto de versatilidade e de explorar meios diferentes. Estou sempre à procura de novos desafios, e isso tem muito a ver com a minha formação.
O que a fez escolher este destino?
Sempre fui fascinada pelos Estados Unidos, mas quando lá cheguei... As universidades, a nível de equipamentos, são óptimas, mas a vivência não me entusiasmou. Vivi lá 15 anos e nunca mais regressei... não é uma sociedade que me atraia muito. Mas decidi ir para lá estudar pelo facto da arte não ser tão conservadora, ser mais radical e ser muito respeitada. Aqui continuo a ficar triste e decepcionada com a relação que a sociedade mantém com os artistas: o trabalho não é respeitado e continua a ser visto como um hobby.
O que mudou, desde essa altura, na arte em Portugal?
Há mais artistas, há mais exposições, há mais eventos... a minha desilusão continua a ser o público, que não vai aos sítios. Há tanta oferta – coliseu, teatro, biblioteca, museu, galerias – e são sempre as mesmas pessoas a frequentar esses espaços.
João Cordeiro
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