Irmandades do Espírito Santo são modelo "revolucionário"

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Antonieta Cabral

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As Irmandades do Espírito Santo "correspondem de uma maneira extremamente económica a um ideal de gestão de fazer desaparecer os níveis intermédios entre as cúpulas e as bases, tornando a organização cada vez mais horizontal".
 
A opinião é da socióloga açoriana, Antonieta Costa e baseia-se numa vasta experiência a estudar cerca de 60 Irmandades do Espírito Santo na Ilha Terceira, que lhe serviu de base, primeiro para um mestrado em Teoria das Organizações para uma universidade americana e, mais recentemente, para a sua tese de doutoramento, no ISCTE.
Em entrevista ao Açoriano Oriental, à margem de um conferência que Antonieta Costa proferiu em Ponta Delgada sobre “O Poder e as Irmandades do Espírito Santo”, a propósito do aniversário do jornal Expresso das Nove, a investigadora defendeu que as Irmandades do Espírito Santo são um modelo organizacional revolucionário de estrutura horizontal de poder que poderia ser aplicado às empresas ou até às organizações políticas. “É de facto um modelo que exclui todos os níveis intermédios de poder até as próprias cúpulas. É a organização mais horizontal que eu já vi”, afirma.
Mas não haverá mesmo um único grau de autoridade nas Irmandades do Espírito Santo, questionámos Antonieta Costa: “pontualmente”, começou por responder, “nas semanas de execução do culto existe uma autoridade, mas em termos ideológicos e da evolução do culto, em geral e ao longo dos anos, percebe-se que nunca houve nenhuma hierarquia a orientar os ideais”, conclui. O único resquício burocrático de organização tradicional das Irmandades do Espírito Santo, lembra a investigadora, são os estatutos que todas têm de ter, mas que a maior dos seus membros “nem sabe que existem ou sequer os consulta”, admite Antonieta Costa.
A própria divulgação do culto do Espírito Santo, o primeiro objectivo das Irmandades, não obedece a regras definidas e vai-se moldando à vontade colectiva de cada uma das Irmandades “divergindo imenso de freguesia para freguesia”, refere Antonieta Costa. E uma das imagens mais associadas a esta celebração são as “Sopas” do Espírito Santo, a grande ceia dada à comunidade que fez a investigadora compará-la às formas primitivas de entrar em contacto com a divindade através de uma grande refeição, em comunhão de todos os participantes.
Aliás, o seu próximo trabalho, que está a preparar com a Universidade do Minho e com a Fundação para a Ciência e Tecnologia, que deverá editar brevemente, levou-a a uma aproximação às origens do Espírito Santo, como algo enraizado em práticas arcaicas de celebração das divindades e dos ciclos da Natureza.

Igualdade social
A História tem demonstrado que o ideal da igualdade social acaba por tornar-se utópico ou muito difícil de concretizar, perante uma organização social que sempre se baseou na ideia da liderança e na qual o “outro” é visto, não como alguém que pode interagir connosco como emissor de conhecimento, mas como um opositor.
Mesmo nas Irmandades do Espírito Santo, há a figura do “mordomo” ou do “imperador”, nomes que nos remetem imediatamente também para uma ideia de liderança. Mas isso é algo que Antonieta Costa não reconhece como tal. “Qualquer pessoa tem acesso a esse cargo e não se trata de um líder ideológico, mas antes de uma figura operacional, pois a construção do acto de celebração do Espírito Santo é feita por toda a gente e, às vezes, o imperador ou o mordomo acabam por ser os que têm menos a dizer”, afirma.
Antonieta Costa defende uma corrente de pensamento que contraria a ideia tradicional de que a influência vem sempre das hierarquias para as bases, contrapondo-a com uma influência que vai nos dois sentidos, por igual. Mas como é que a política e a economia se poderiam adaptar a sistemas horizontais de organização, baseados na igualdade e na influência mútuas? Antonieta Costa responde: “tudo teria de ser alterado”. E tudo alterado não poderia degenerar numa anarquia, questionámos Antonieta, ao que ela respondeu que “as coisas só se tornariam ingovernáveis, se não atribuíssemos responsabilidades ao ser humano comum, porque o modo como ele actua nas Irmandades onde lhe são atribuídas responsabilidades não é caótico ou anárquico e resulta, pelo contrário, numa maior diversidade”.

Ganhar com o Espírito Santo é um “crime”

Há, sobretudo em São Miguel, a ideia de que as Festas do Espírito Santo nem sempre obedecem a critérios unicamente de solidariedade, podendo haver pessoas que, colocando-se temporariamente em posições de organização, ganham efectivamente com a realização dessas festas. Antonieta Costa reconhece que já ouviu falar disso várias vezes em São Miguel, embora refira que “em outras ilhas isso seja considerado impensável”. Dando como exemplo a Terceira, cujas irmandades estudou, a possibilidade de ganhar dinheiro com o Espírito Santo “é uma forma aberrante, que deixa as pessoas escandalizadas, é um crime”, refere a investigadora, que estudou Irmandades onde a estrutura horizontal de organização não passava das 200 famílias.