Actividade curandeira devia ser federada e legalizada


 

Rui Cabral   Regional   5 de Jul de 2009, 08:31

Carlos Dias é o presidente da religião Umbanda e Candomblé em São Miguel, onde é também o representante da Federação Espírita Guardiões da Luz. Em entrevista exclusiva ao Açoriano Oriental, este "Pai de Santo" fala abertamente dos rituais da sua religião e dos mitos que a envolvem

"Queremos, juntamente com as Finanças, arranjar uma forma de seleccionar os verdadeiros e os falsos médiuns (pessoas intermediárias entre os seres humanos vivos e os espíritos) através a Federação Espírita Guardiões da Luz". A afirmação é de Carlos Dias, 33 anos, presidente da religião Umbanda e Candomblé em São Miguel.

Carlos estima em cerca de 600 as pessoas a trabalhar em São Miguel na actividade mediúnica, dando consultas, orientando as pessoas, fazendo curas. "Queríamos que essas pessoas descontassem para a Segurança Social e para as Finanças e fizessem do seu negócio um negócio limpo", afirma Carlos Dias, que lembra que há muitas pessoas por São Miguel com dons espirituais a "viver em casarões", porque ganham muito dinheiro que não está sujeito a quaisquer descontos. O presidente da religião Umbanda e Candomblé diz ser esta também a pretensão de alguns dos curandeiros mais antigos, que gostariam de se federar numa entidade que coordenasse a sua actividade e que lhe desse um rosto legal, tal como a cartomancia ou as medicinas alternativas, que já são actividades legalizadas. Como exemplo, Carlos dá o do próprio processo de legalização da sua religião nos Açores, que foi muito complicado. "Não me queriam reconhecer a documentação que eu trouxe do Brasil para cá porque não existiam em Portugal códigos fiscais para que eu pudesse iniciar a minha actividade legalmente", recorda Carlos. Um processo que só ficou concluído há quatro anos.

A religião Umbanda e Candomblé baseia-se na crença de que existem entidades que descem às pessoas, tentando "despertar" nelas a força de vontade para ultrapassar um problema grave na vida. No fundo, o fim é o mesmo de qualquer outra religião. A forma de lá chegar é que é diferente.

Carlos Dias é um "Pai de Santo", uma espécie de "sacerdote" do Candomblé e reconhece que "Pai" aqui tem uma definição muitas vezes literal, ou seja, ele é o orientador de muitas das pessoas que vão às suas consultas e às celebrações de sexta-feira no seu "Terreiro". Carlos Dias considera estar envolvido na religião Umbanda e Candomblé "desde a minha nascença", por ter herdado dos pais o dom da mediunidade. Por ano, Carlos já atende cerca de duas mil pessoas da ilha e de fora dela para obterem ajuda na sua vida profissional e familiar, bem como em vários problemas do foro psiquiátrico ou mesmo físico, as chamadas pessoas "desenganadas" pelos médicos, embora o contrário também aconteça, como reconhece Carlos Dias: "também mandamos daqui pessoas que pensam terem problemas espirituais para os médicos especialistas", afirma.

Em criança, Carlos foi levado a benzedores, curandeiros e leitores do Livro do Santo Cristo para tentar perceber porque era "diferente" das outras crianças, com sucessivos ataques que a medicina não sabia explicar. Só uns anos mais tarde, por si próprio, Carlos descobriu numa pesquisa na internet a religião Umbanda e Candomblé. Embarcou então sozinho para o Brasil "sem conhecer nada e ninguém" e foi na Federação Espírita Guardiões da Luz, que representa actualmente em São Miguel, que se iniciou no Candomblé. Regressou aos Açores "licenciado" para enfrentar o que diz ser uma "luta constante por a minha religião não ser considerada normal, mas sim como uma religião macabra, que mata animais e faz sacrifícios, associando-nos aos bruxos".

O Candomblé é, de facto, muito associado às magias negras - às "macumbas" - um qualquer mal que se "encomenda" a uma pessoas que se quer atingir. Carlos, no entanto, faz questão de separar as águas: "o nosso estatuto proíbe a magia negra", garante, embora reconheça que a macumba existe, mas só aparece quando "o dinheiro sobe à cabeça das pessoas que têm um dom espiritual, utilizando a bruxaria e as macumbas para fazer riqueza com isso, trazendo uma máscara muito feia para a nossa religião".

A religião Umbanda e Candomblé tem as suas origens em África e desenvolveu-se no Brasil, entre os escravos, que não tinham direito a ter outra religião que não fosse a Católica. Por isso, o Candomblé apropriou-se de divindades católicas que transformou nas suas próprias divindades, os Orixás. Por exemplo: Iemanjá é Nossa Senhora de Fátima; Iansã é Santa Bárbara; Oxalá é Jesus Cristo; Obaloaié é São Lázaro e Ifá é o Espírito Santo, mas há muitos outros Orixás com correspondência nos santos católicos.

A celebração principal do Candomblé são as chamadas Giras, que têm lugar no Terreiro, o espaço de culto. Numa cerimónia que envolve música e dança, as entidades descem sobre as pessoas, num processo mediado pelo "Pai de Santo", orientando-as nos seus problemas. Aqui chega-se à parte mais polémica deste culto. O transe é ajudado pelo "batuque", mas também pelo consumo de álcool, numa sessão que pode durar até oito horas. O álcool - que só o Pai de Santo consome - é também uma forma dele se proteger e libertar das cargas negativas e doentias que recebe das pessoas que vão às sessões, tal como as suas guias protectores - os longos colares bem visíveis por cima da roupa branca de Carlos - que representam os vários Orixás.

Por isso, Carlos Dias admite que só faz uma Gira por semana, devido ao enorme desgaste físico a que se submete em cada sessão. Contudo, garante que não consome álcool na sua vida do dia-a-dia, que até é pouco tolerante ao álcool e que, sempre que acaba uma Gira, apesar de saber que consumiu bebidas alcoólicas, não sente qualquer sensação de embriaguez ou de ressaca.

Carlos gostaria de ter um espaço maior do que o seu Terreiro da zona das Alminhas, em Rabo de Peixe, junto à Estrada da Ribeira Grande, que é também a sua residência, mas as contribuições que recebe das consultas que dá, normalmente apenas uma por dia - para garantir o anonimato de quem as frequenta - ainda não são suficientes para que o Candomblé cresça para um espaço maior. Nas Giras de sexta-feira, a entrada é livre. O seu Terreiro é frequentado por pessoas de todas as idades e condições sociais, incluindo até médicos ou pessoas que dizem ter outras religiões como o Islão ou o Catolicismo.

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