'Açorianos Lá Fora'

Tito: o açoriano que fez do mundo casa para 'acalmar a alma inquieta'

Tito: o açoriano que fez do mundo casa para 'acalmar a alma inquieta'

 

Miguel Bettencourt Mota   Cultura e Social   25 de Fev de 2018, 20:30

Tito Bettencourt vive em Londres há quatro anos, mas aquela terra de Sua Majestade é apenas trampolim para o micalense, de 27 anos, poder correr o mundo e os vários mundos que nele cabem. São coisas de um pássaro a quem não se pode cortar as asas. São voos necessários quando a Sapateia não dá para acalmar a alma inquieta. Tito é filho do músico Luís Alberto Bettencourt e irmão de Paulo Bettencourt, pelo que também nele há música a correr nas veias. Por isso, quando sai da 'sombra' dos bastidores, há Neverwill para toda a gente. Quem sabe se não acabará por ser a banda a trazê-lo de volta "ao berço que a ilha encerra" – aqui recordando Chamateia, tema composto pelo seu pai, que acolheu as palavras de António Melo e Sousa.


O Tito não está a viver em São Miguel. Como surge essa oportunidade de ir para fora? Foi por curiosidade ou desafio profissional?

Foi um pouco pelas duas razões. Basicamente, estava em São Miguel, desempregado, e tive sempre na mente partir e poder explorar um sítio novo. Pensei em voltar para Lisboa – onde tirei o curso de câmara e iluminação -, mas conhecia pessoas minhas amigas que também eram de São Miguel e viviam em Inglaterra e acabei por ir para Londres...

...E é fácil viver em Londres?

Não diria fácil, nem difícil. Todos os locais têm as suas 'coisas', mas vamo-nos habituando. Claro que Londres é uma cidade completamente diferente de uma ilha como São Miguel e que tive de me adaptar a essa realidade. Agora, a adaptação varia de pessoa para pessoa...

...Estava aí por altura dos atentados terroristas?

Sim, estava...

... A onda de medo chegou até si?

Eu acredito que as pessoas não devem reagir com o medo, porque isso é dar a vitória a quem pratica o terrorismo. É isso que eles querem e eu recuso-me a ceder...Sei que o perigo existe, que é iminente, mas tento levar a vida sem pensar nisso.

O Brexit também despertou alguns nacionalismos. Sentiu-os na pele?

Felizmente, nunca me senti um 'outsider'. Sei, infelizmente, que os nacionalismos existem, mas nunca passei pela experiência de não me sentir desejado aqui.

Formou-se em câmara, em Lisboa, mas não é exatamente essa a vertente que está a exercer?

Sim, não estou a trabalhar com câmara. Agora, trabalho diretamente na indústria dos eventos. Incorporo uma equipa que trabalha para toda a Inglaterra e também para outros pontos do mundo...Faço instalação de luz, som, palcos e acho que me tornei bom na área.

Portanto, Londres tem sido também uma cidade trampolim para conhecer outros sítios do mundo?

Verdade. Após ter vindo para cá, viajar tornou-se um hábito e já conheci 25 países diferentes, quer em lazer, quer em trabalho.

Que experiências profissionais mais destaca, dos vários pontos geográficos que visitou?

O meu primeiro trabalho – que guardo num 'cantinho' especial do coração – foi em Paris. Estive lá um mês, por ocasião de uma grande exposição da Canon...Mas o que veio depois, foi talvez o 'highlight' do meu percurso até agora: estive quatro meses no Rio de Janeiro, a trabalhar no Maracanã para as cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos no Brasil. Da equipa, era o único que falava a língua, o que me fez sentir bastante valorizado e, de certa forma, importante naquela que era a minha função. Foi uma experiência incrível e difícil de esquecer!

Que outros locais lhe ficaram na memória?

Estive em Cannes, para o festival Cannes Lions, e, no Médio Oriente, também já estive no Azerbeijão e no Turquemenistão. Foi uma experiência igualmente incrível...Quando estamos num país europeu, temos sempre uma sensação de segurança, mas, a partir do momento em que estamos num país do Médio Oriente, as coisas são diferentes. Não é que se sinta medo, mas há, de facto, um sentimento de respeito e o choque cultural é inevitável.

Que diferenças mais marcantes registou?

As diferenças eram descomunais ao nível das pessoas, das crenças religiosas e das regras em sociedade. Por exemplo, no Turquemenistão toda a gente é obrigada a estar em casa às 23h00 e ter as janelas fechadas. Há polícia e forças de segurança por todo o lado e vemos que é um povo bastante reprimido. Apesar disso, adorei a experiência e pude também conhecer pessoas fantásticas, tal como em todos os outros locais do mundo em que estive.

Mais recentemente, através do Facebook, pudemos vê-lo no 'backstage' do concurso Britain's Got Talent...

...Esta é a terceira vez que trabalho para o Britain's Got Talent, uma experiência que se junta também ao facto de ter trabalhado para o X-Factor, Big Brother e outros espetáculos televisivos. É um tipo de trabalho dinâmico e em que se sente a responsabilidade a um alto nível. No Britain's Got Talent, por exemplo, estou encarregue de fazer as mudanças rápidas no palco, entre cada artista...É stressante, mas tem adrenalina e é também enriquecedor para o meu currículo.

Na mesma rede social, e na publicação em que o vemos nos bastidores do programa, o seu pai – o cantautor Luís Alberto Bettencourt – desafia-lhe a mostrar o que sabe naquele mesmo palco, enquanto músico. Fazê-lo nunca lhe passou pelo horizonte?

Acho que a melhor resposta que posso dar é com as próprias palavras do meu pai, que li algures numa entrevista que ele deu. Dizia que "a música não pode ser vista como uma competição"... Eu concordo e, por isso, nunca pensei em entrar num concurso do género! Prefiro fazer a minha própria música e divulgá-la com a minha banda!

Em São Miguel fez parte de projetos como Deep Coma e Alien Seed. Agora é baixista e vocalista da banda Neverwill aí em Inglaterra. Fale-nos dela...

A minha participação na banda é algo bastante recente e surgiu depois de uma viagem que fiz para a Índia, com o baterista de Neverwill (que é meu amigo). É a banda assim 'mais a sério' que integro em Londres e temos vários concertos para o mês que vem. Gravámos um 'EP' com cinco temas e já pode ser ouvido online. Sou o único estrangeiro na banda e até agora o percurso tem sido bastante satisfatório. Estamos a sair da 'garagem' e prontos para começar a 'rockar' em todos esses pubs de Londres e por aí afora. A 'pica' é grande para podermos exprimir o nosso som...

...Qual o registo da banda?

Sempre fui bastante metaleiro desde puto, mas o projeto não chega a ser metal. Tem influências de heavy metal - claro! Se não, não faria parte da banda! -, mas o estilo é assim mais para o rock dos anos 90. Temos bastantes influências de Foofighters, Faith no More, Nirvana...É assim um rock mais para o antigo, que combina punk e grunge...

Desafiámos o seu pai a fazer-lhe uma pergunta neste espaço. Ele gostaria de saber quando virá aos Açores com Neverwill?

Faz parte dos meus planos. Talvez ainda seja muito cedo, este ano. Mas seria quase como a concretização de um sonho poder levar a banda para uma Maré de Agosto, um Festival Azure, um Monte Verde ou mesmo à Baía dos Anjos ou ao Raíz. Ter a banda na minha 'terrinha' seria um momento para recordar o resto da vida. Vamos a ver se se torna uma possibilidade.

Curiosamente, o universo musical de Neverwill e de outros projetos que integrou diferem bastante daqueles a que o seu pai nos habituou e integrou...Estamos a recordar-nos de projetos como Construção e Rimanço. Ainda assim, e dado o ambiente musical em que cresceu, que proveitos retirou?

Bom, como toda a gente sabe o meu pai é o Luís Alberto Bettencourt e o meu irmão – não menos importante – é o Paulo Bettencourt. Cresci com guitarras, amplificadores e cabos à minha volta...A música sempre me correu nas veias e foi só uma questão de tempo até descobrir o meu gosto por ela também. O meu caminho pelo heavy metal não foi uma escolha, aconteceu naturalmente...Acabei por ser contagiado por sonoridades mais extremas e confesso que o facto de o meu irmão mais velho fazer parte de Morbid Death também teve influência. No entanto, não me restrinjo só a esse género, gosto muito de vários estilos que em nada têm a ver com 'heavy metal'.

Já percorreu vários quilómetros e já pôde ver muito para além do mar que sempre contemplamos, como açorianos. Os Açores passaram a ser muito pequenos para si?

Pergunta difícil [risos]... Bem, eu não posso dizer que os Açores são pequenos demais, mas, desde que saí da Região, descobri que o mundo é grande demais para me fechar no mesmo sítio durante toda a minha vida. Um pássaro não gosta de estar fechado...Também eu não gosto que me cortem as asas...

E quando ouve a Chamateia? Não lhe cresce a vontade de voltar a pousar?

Chamateia, No Vapor da Madrugada, Boi do Mar, são todas músicas que quando ouço, dão-me bastantes saudades...Essas - que são do meu pai - e outras de Zeca Medeiros, Aníbal Raposo e Luís Gil Bettencourt! Portanto, a vontade de voltar é sempre imensa, mas acho que este não é o momento certo. Essa é também uma das consequências de irmos saltando de ponto em ponto...Acabamos por fazer do mundo a nossa casa.



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