Refugiados vão testar sentimentos racistas em Portugal

Refugiados vão testar sentimentos racistas em Portugal

 

Lusa/AO Online   Nacional   29 de Dez de 2015, 07:22

A próxima chegada a Portugal de cerca de 4500 refugiados do Médio Oriente, com escassas ligações à cultura e língua lusófonas, poderá ser um verdadeiro teste à prevalência de sentimentos racistas no país, de acordo com um académico que estuda o fenómeno.

 

Em declarações à Lusa, Manuel Carlos Silva, professor universitário que, com José Manuel Sobral, organizou o livro “Etnicidade, racismo e nacionalismo, migrações, minorias étnicas e contextos escolares”, apresentado este mês em Lisboa, distingue dois momentos: o atual, de solidariedade para com as vítimas das guerras da Síria e do Iraque, e o que ocorrerá com a próxima chegada ao país de centenas de novos refugiados.

“Em Portugal as declarações de diversos protagonistas políticos têm sido favoráveis, assim como aparentemente da maioria dos cidadãos, alguns dos quais têm tomado louváveis iniciativas para proporcionar a vinda e o acolhimento a refugiados, vítimas de perseguições e dramas sociais”, diz Manuel Carlos Silva à Lusa, sem deixar de advertir para o “outro lado da superfície” do problema.

Num país em que a pobreza e os problemas de desemprego, a falta de habitação e a ausência de apoios sociais são enormes, pode haver a tentação populista e xenófoba de alimentar os receios de os portugueses serem preteridos em relação aos novos refugiados, cujas situações de perseguição e dramas nas viagens e acampamentos podem não ser visíveis e compreensíveis para uma parte de portugueses menos esclarecidos ou politicamente informados.

De resto, em Portugal, um país que durante décadas viveu numa ilusão ‘lusotropicalista’ de não praticar o racismo, os preconceitos em relação ao outro e à sua diferença cresceram recentemente, tendo como alvo comunidades de imigrantes da CPLP e ciganos portugueses.

“Tais comportamentos já afloraram aquando de recolha de fundos para os PALOP, a ações de solidariedade com emigrantes negros e sobretudo relativamente aos direitos de portugueses ciganos no campo da habitação, dos apoios sociais ou, para quem esteve atento, em reações de bastantes eleitores, por ocasião da última campanha para as legislativas”, em outubro de 2015.

“Portugal conhece um grau relativamente baixo de conflitualidade aberta com os emigrantes, nomeadamente dos PALOP, mas tal não significa que não haja tensões, clivagens ou conflitos interétnicos latentes. Mais, podemos concluir que, a par de interações de boa vizinhança e solidariedade entre autóctones e imigrantes, nomeadamente africanos, existem preconceitos e distâncias sociais que não confirmam a tão propalada exemplar política de ‘integração’ em Portugal, veiculada nalguns relatórios nacionais e mesmo internacionais, os quais reproduzem narrativas ideológicas de encobrimento dos problemas”, defende o académico.

Face à próxima entrada no país de milhares de refugiados, o professor catedrático de Sociologia da Universidade do Minho e Prémio Sedas Nunes defende que as suas origens “impõem precauções em termos de segurança a levar a cabo pelos serviços de informação e autoridades policiais, e todo um trabalho de esclarecimento e um enorme caminho a percorrer à luz dos princípios e das práticas de multiculturalismo crítico, no combate aos preconceitos, na comunicação interétnica, na denúncia de agressões e violências, no reforço de escolas e professores multiculturais, na responsabilidade das organizações políticas e nas associações de imigrantes”.


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