Português distinguido com prémio da União Europeia de Geociências

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O geólogo João Duarte, especialista em falhas sísmicas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, é o primeiro português a trabalhar no país a receber o prémio da União Europeia das Geociências, a 26 de abril.
 

 

"Não estava nada à espera de receber o prémio a nível da União Europeia das Geociências. Foi uma surpresa para mim. Fiquei contente. O prémio é individual, mas está a premiar também o trabalho de uma equipa", afirmou à agência Lusa o investigador que, aos 35 anos, coordena o grupo de geologia e geofísica marinha do Instituto Dom Luiz, daquela faculdade.

A União Europeia das Geociências atribuiu o prémio ao trabalho que o geólogo, natural de Torres Vedras, tem vindo a fazer na área da geologia marinha e tectónica e na divulgação científica da sua investigação, ao interpretar dados do fundo do mar recorrendo a nova tecnologia.

Em 2013, na revista científica Geology, publicou os resultados da sua tese de doutoramento, defendida em 2012, propondo um novo mapa de localização das falhas tectónicas localizadas ao largo da costa sudoeste de Portugal, que terão causado os sismos de 1755 e 1969, ambos com magnitude de cerca de 8.0 na escala de Richter.

A investigação, aprofundada nos anos seguintes, deu origem a um novo artigo científico publicado em 2016.

Para João Duarte e outros geólogos internacionais, os sismos de 1755 e 1969 evidenciam que as placas tectónicas existentes no fundo do Oceano Atlântico estão a movimentar-se e constituem sinais de que as suas margens poderão estar a convergir.

Estas mudanças levam os investigadores a afirmar que "vai haver outro sismo como o de 1755" em Portugal, mas não conseguem prever a sua ocorrência.

Ao contrário do Pacífico, onde os sismos são mais frequentes, está ainda por perceber a complexidade da regularidade dos sismos no Atlântico.

"O período de ocorrência de sismos como o de 1755 tem sido calculado na ordem dos mil a dois mil anos. Daqui a 20 milhões de anos, serão mais frequentes porque teremos o oceano a fechar. Mas não quer dizer que não possa acontecer daqui a um ano ou daqui a 50 ou 100 anos", apontou.

O fenómeno de fecho do Atlântico levará milhões de anos e é contrário ao que ocorreu há 200 milhões atrás, quando os dinossauros habitavam a Terra, e os continentes americano, europeu e africano estavam unidos na Pangeia.

A corroborar a teoria está também o facto de os cientistas saberem que os oceanos "têm ciclos de vida" na ordem dos 500 milhões de anos, em que vão abrindo ou fechando, e que tanto o Atlântico, como o Pacífico alcançaram uma "idade avançada".

"Sabemos que o Pacífico está a fechar, daí ocorrerem sismos à volta das suas margens. O Atlântico poderá estar a começar a fechar e poderá fechar dentro de 200 ou 300 milhões de anos e formar um supercontinente", resultante da fusão dos continentes, explicou João Duarte.

A existência de fissuras na superfície terrestre causadas pelo afastamento e consequente abatimento de partes da crosta, entre a Europa e a Ásia, levam os cientistas a equacionar que o Atlântico e o Pacífico deverão fechar e daí surgir um terceiro grande oceano, na zona do Índico.

João Duarte, autor de 26 artigos científicos publicados, licenciou-se em 2005 em Geologia e Recursos Naturais pela Faculdade de Ciências da Universidade, concluiu, em 2007, mestrado em cartografia geológica pela Universidade de Évora e, em 2012, doutoramento na Universidade de Lisboa.

O prémio da União Europeia das Geociências distingue jovens investigadores de todo o mundo e vai ser entregue a 26 de abril, em Viena (Áustria).