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Paraíso a descoberto na Quinta do Martelo

Paraíso a descoberto na Quinta do Martelo

 

João Rocha   Cultura e Social   28 de Jan de 2018, 19:17

É como se fosse um parque temático, cheio de ambiências, renovadas e consolidadas todos os dias. Gilberto Vieira fez do projeto etnográfico a obra de uma vida. Para quem visita a Quinta do Martelo, é quase como achar um paraíso rural perdido na gaveta mais escondida da memória. O maior dos prazeres é que o paraíso, afinal, está a descoberto...


A Quinta do Martelo - nome que lhe advém duma aldraba do século XVIII que ainda ornamenta o portão principal - é uma propriedade situada a cinco quilómetros da cidade de Angra do Heroísmo, que conheceu o seu auge durante o ciclo da laranja.

Aqui eram produzidos e encaixotados esses citrinos que a Europa consumia como produto de primeira qualidade, tantas vezes vendidos como produto Japonês.
Mais tarde, após o declínio desse ciclo económico dos Açores, foram instalados lagares na Quinta para a produção de vinho e aguardente de nêspera, fruto que ainda hoje abunda nos 90.000 metros quadrados que constituíam a propriedade, lado a lado com muitas laranjeiras e outras árvores de fruto

Na Quinta do Martelo, propriedade do empresário Gilberto Vieira há quase três décadas e classificada de Utilidade Turística pelo Governo Regional dos Açores, pretende-se repor um ambiente rural terceirense genuíno, a começar pelas construções e adereços, até à gastronomia, meio envolvente de usos, costumes e aspetos festivos.

 
Na Quinta do Martelo, até o menos observador encontrará várias curiosidades de que ouvia falar os seus avós, quando estes recordavam velhos tempos.

Logo à chegada, uma bandeira, sinal antigamente usado, servia para informar o moeiro, que havia grão para moer, que em caso de ausência evitava desvios e perdas de tempo. Esta bandeira neste momento identifica o restaurante. O chafariz, com o bebedouro para o gado, tanque de sobras, pias de lavar e até a arquinha. Palheiros: um de colmo para todas as alfaias, carros e outros amanhos de trabalho na terra, comida seca para as reses e arribana com as diferenças de abrigo para o bovino e para o cavalo; outro de pedra e telha, " o palheiro da eira " com os trilhos, forquilhas e suas portas rústicas com fecho de madeira.

Ao lado, a eira ensaibrada. Bem perto, a velha serração e várias pedras de utilidade como a de saltar para a montada.

Franqueando o portão com aldraba de martelo, origem do nome da Quinta, pode o visitante observar no pátio, a burra de milho, casa de cão, defesas para os ratos, réplicas das caixas onde se exportava a laranja, amanhos de forno, caniços de pesca e gaiola pendurados no beiral, também este com as respetivas calhas em madeira para conduta e aproveitamento da água para os talhões.

 As portas e janelas à moda antiga com as suas tramelas, fechos, "pica-portas", fechaduras de madeira e ferro, dobradiças, capuchos e lemes assim como as trancas, tudo de diferentes modelos colocados nos locais e posições corretas para utilização eficiente.

  Verdadeiras relíquias

 As habitações da Quinta do Martelo reproduzem o evoluir das técnicas de construção e formatos das casas terceirenses, desde a época do povoamento (século XVI), utilizando materiais endógenos até onde é possível, o mesmo se aplicando aos móveis e instrumentos utilitários do lar ou do trabalho rural.

Designadas por casas do Meio, dos Velhotes, do Povoador e do Quinteiro, revelam verdadeiras relíquias, havendo o cuidado dos equipamentos modernos (como a televisão ou o ar condicionado, por exemplo) não interferirem diretamente com toda a metodologia da separação de espaços com bases nos vestígios encontrados.

A Quinta do Martelo conta com oficinas de artes e ofícios tradicionais como os de ferreiro, latoeiro, oleiro, cesteiro, marceneiro, carpinteiro, tecedeira, caiador/pintor, serrador/lenhador, sapateiro, tanoeiro, barbeiro, cabouqueiro, canteiro, calceteiro e ainda um alambique.

Quanto às produções agrícolas, que são utilizadas na confeção de muitos pratos no restaurante do empreendimento – a venda do Ti Manel da Quinta -, são usadas as técnicas ancestrais, quer na forma e épocas do cultivo, quer no enriquecimento dos solos, que é feito à base de estrume animal e outras compostagens vegetais.

Noutra vertente, Gilberto Vieira realça a sensibilização junto dos hóspedes para o consumo responsável de água.

“Existem sistemas próprios de captação e armazenamento de água da chuva, através de calhas e cisternas decalcados de antigos saberes, utilizamos lâmpadas de baixo consumo e temos instalado um pequeno ecoponto, a uma distância acessível a todos”, especifica.



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