Para os portugueses em Macau o cantonês ainda é língua "de mercado e de táxi"

Para os portugueses em Macau o cantonês ainda é língua "de mercado e de táxi"

 

Lusa/AO online   Nacional   20 de Fev de 2015, 11:34

Ao fim de cinco séculos em Macau, poucos são os portugueses que conseguem dominar o cantonês. A sensação de estadia temporária, as dificuldades de aprendizagem e o pouco prestígio que o idioma goza face ao mandarim são alguns dos motivos apontados.

 

Gilberto Lopes, chefe do canal português da Rádio Macau, é um caso emblemático: há 25 anos no território, não domina a língua chinesa, tal como as filhas. "Embora tenha feito algumas tentativas, não passei disso. Reconheço que foi uma asneira não ter insistido. É evidente que foi uma carência, sobretudo no meu caso que trabalho com informação", conta à agência Lusa, quando no sábado se assinala do Dia Internacional da Língua Materna.

"Quando cheguei não era previsível que a minha permanência fosse tão longa", justifica, lembrando como 1999 era o horizonte de regresso comum. "Contam-se pelos dedos os que vieram nessa altura que tenham aprendido", assegura.

As filhas estudaram mandarim na Escola Portuguesa de Macau (EPM) mas "nenhuma [das duas] teve grande evolução".

Foi a confiança na qualidade do ensino na EPM que motivou a sua escolha. Além disso, "não fazia sentido pôr as miúdas numa escola chinesa se os pais não eram chineses".

Já Maria Antónia Espadinha, vice-reitora da Universidade de São José, manifesta arrependimentos: "Senti uma grande frustração porque pensei que os meus filhos fossem para a escola luso-chinesa. Toda a gente me desencorajou, mas ainda hoje tenho pena, acho que lhes teria dado mais horizontes".

Há 21 anos em Macau, Espadinha fez as suas incursões pela língua chinesa, mas admite que não foi longe. "A primeira coisa que fiz quando cheguei foi inscrever-me no cantonês. Fiz dois semestres mas depois nunca mais consegui horário", lembra. Hoje, o seu cantonês é "de mercado e de táxi".

"Vive-se em Macau sem essa aprendizagem mas podia viver-se muito melhor, cai muito bem na comunidade chinesa", comenta, lamentado que os filhos pouco falem do idioma.

No entanto, vê o cenário alterar-se com os pais mais jovens, "com um espírito mais aberto".

Será o caso de Filipa Simões, designer, em Macau há 11 anos, e que optou por colocar a filha de três anos num infantário chinês, uma escolha rara entre a comunidade portuguesa.

"Queríamos mesmo que a Matilde aprendesse o cantonês para poder viver completamente em Macau. Queríamos que ela fosse uma cidadã plena", conta.

No primeiro ano do infantário, a Matilde fala mais cantonês que os pais, utilizadores "básicos" da língua. "Connosco não fala muito mas quando fala nem sempre a percebo, já me ultrapassou", conta a designer.

Até agora, os pais, ambos portugueses, estão satisfeitos com a evolução da filha que já sabe "o abecedário em inglês e alguns carateres".

"Enquanto ela está feliz e a aprender ao mesmo tempo, para nós é ideal. Ela é que nos vai guiando. É uma criança muito sociável, tem amigos. Com a melhor amiga só fala em chinês", diz Filipa Simões.

Cabell Chan, professora de cantonês, dá conta de um maior interesse dos portugueses em aprender a língua de Macau.

"Nestes últimos anos fiquei surpreendida por ver os portugueses a aparecer nas minhas aulas. Dizem que querem comunicar com os chineses, querem perceber a comunidade, o que me surpreendeu porque a ideia que tinha era que os portugueses não sentiam que precisavam do chinês", conta.

A professora admite que o cantonês é significativamente mais difícil de aprender que o mandarim e que há "muito mais oferta" de cursos na língua de Pequim. "Até há aulas gratuitas", salienta.

No entanto, é frequente receber estudantes que "já tinham aprendido mandarim mas depois perceberam que as pessoas não falam e decidem aprender cantonês".

Dominar o cantonês não é impossível, mas é preciso dedicação e muita prática fora das aulas. "Os alunos conseguem ser fluentes se tiverem um ambiente em que estão expostos à língua, têm de falar com outras pessoas. Se não a usam, esquecem-se", avisa.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
 
Termos e Condições de Uso.