Gigantesca tempestade cria depósito fossilífero (vídeo)

Ciência /
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O depósito fossilífero da Malbusca, na ilha de Santa Maria, foi formado por uma gigantesca tempestade que terá acontecido há cerca de 4 a 4,3 milhões de anos.
 

Esta ideia, defendida num artigo assinado pelo investigador do Departamento de Geociências da Williams College, Markes E. Johnson, resulta de um estudo de pormenor desta jazida fóssil.

Da equipa que realizou este estudo faz parte o investigador do CIBIO-Açores, Sérgio Ávila, que explicou o mecanismo de formação de um depósito com estas características.

“Chegámos à conclusão que o mecanismo explicativo para um depósito tão grande como aquele que se encontra na Malbusca teria resultado de uma tempestade muito grande que ocorreu há cerca de 4 a 4,3 milhões de anos e que afetou o litoral sul da antiga ilha de Santa Maria, movendo a areia de uma barra localizada no ‘offshore’ e depositando-a encostada a uma zona topograficamente mais elevada, em ambiente submarino”, explicou.

Sérgio Ávila salientou ainda que esta tempestade terá tido uma força várias vezes superior às grandes tempestades que acontecem na atualidade.

“Quando esta tempestade ocorreu, o clima nos Açores era bastante mais quente que o atual. Os nossos estudos estimam que a temperatura média anual da água do mar fosse entre 3 ,7 e 6,3 ºC acima da atual. Ora, diversos modelos sugerem que, no contexto do Período Quente do Pliocénico, durante o qual as condições globais do El Niño foram mais intensas do que hoje, as temperaturas médias da água do mar eram bastante mais elevadas do que as atuais, e isso terá feito com que a frequência e a intensidade das tempestades nesta área geográfica fosse bastante superior ao que sucede atualmente. Este nosso estudo confirma precisamente isso”.

Assim esta tempestade terá arrastado um depósito de areia que existiria no litoral mais afastado que se acumulou na zona sul da ilha atual de Santa Maria.

E concluiu: “após esta grande tempestade, passaram vários anos antes de o depósito ter sido recoberto por lavas submarinas. Sabemos isto porque os sedimentos localizados no topo da sequência sedimentar têm marcas de bioturbação, principalmente sob a forma de galerias, as quais testemunham que, após a passagem do furacão que remobilizou toda esta areia, houve tempo suficiente para o cimo deste depósito ter sido novamente colonizado por vida marinha, a qual acabou por ser morta e fossilizada quando a escoada de lava correu e recobriu estas areias”.

Sérgio Ávila salientou ainda a raridade deste tipo de depósitos em ilhas vulcânicas oceânicas, salientando que “as tempestades são comummente agentes de erosão costeira que afetam o litoral através da remoção dos sedimentos próximos à linha de costa, como resultado de poderosas correntes de refluxo aquando dessas tempestades. Mas o que aqui aconteceu foi o transporte massivo de sedimentos, o que é um fenómeno raro que requer condições excecionais”.

Santa Maria tem estado a levantar-se dos fundos oceânicos desde os 3,5 milhões de anos, a uma taxa média de cerca de 60 metros por milhão de anos, o que permite que hoje em dia se tenha acesso ao depósito da Malbusca, que se formou debaixo de água, e que está atualmente a cerca de 25 metros de altitude, estendendo-se ao longo de uma faixa que anda à volta dos 100 a 150 metros de extensão na costa sul da ilha.