Estudantes de Coimbra trajados a rigor oferecem postais a turistas para pagar propinas

Estudantes de Coimbra trajados a rigor oferecem postais a turistas para pagar propinas

 

Lusa / AO online   Economia   23 de Ago de 2015, 12:31

Espalhados pela Alta e Baixa de Coimbra, estudantes vestidos de capa e batina oferecem postais e posam para fotografias de turistas de forma a poderem pagar propinas. A Universidade de Coimbra não vê com agrado esta atividade "típica do 3.º mundo".

 

"Bem-vindo a Coimbra, bem-vindo a Portugal": é assim que Nuno Carreira, de 22 anos, estudante de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, aborda os turistas quando estes caminham na Alta em direção ao Pátio da Escolas - polo de atração da universidade.

Com ele, leva alguns postais com caricaturas dos estudantes ou imagens de edifícios emblemáticos da cidade que é Património Mundial. Começou no verão de 2014 porque "precisava de dinheiro e a bolsa não chegava", conta à agência Lusa.

O estudante, que fala cinco línguas, umas com mais fluência que outras, sublinha que não estipula qualquer preço pelos postais. "Oferecem-se os postais e a pessoa, caso queira, dá uma doação", explana.

Segundo Nuno Carreira, "há cada vez mais estudantes" a oferecer postais a turistas, estando espalhados por locais como a Rua Larga, a Sé Nova, Museu Machado de Castro ou no fim do Quebra Costas.

"Não se faz pouco, mas também não se faz muito", refere o jovem, que chega a estar "12 horas" pela Alta de Coimbra a oferecer postais, salientando também que os estudantes funcionam um pouco como "guias", indicando restaurantes onde se come bem e barato ou outros locais da cidade para se visitar.

Três estudantes, devidamente trajados, sentados à sombra do edifício do Departamento de Química, oferecem postais e canetas com o mesmo propósito: "Pagar despesas como a renda, propinas ou livros".

Por dia, são "dezenas e dezenas de fotos" que tiram junto com turistas, conta um dos três estudantes, afirmando que passa o dia inteiro na Alta de Coimbra.

"Com calções e chinelo era mais fácil", observa outro dos jovens, considerando que, para além do sol, há o olhar de colegas: "olha o roto, olha o teso. Mas tem de se arranjar uma subsistência".

Segundo o estudante, a maior parte dos estrangeiros "estão conscientes da crise do país" e apenas ficam surpresos "com o valor elevado das propinas em Portugal" - cerca de mil euros.

Bruno Santos, de 25 anos, que vai para o último ano de Direito, optou por passar as férias a oferecer postais para "juntar algum dinheiro para o próximo ano".

Estudante bolseiro natural do Porto, diz que a bolsa "paga apenas a propina", sendo esta uma forma "de não sobrecarregar" os pais, conseguindo "25 ou 30 euros nos dias que correm bem".

De acordo com Bruno, surgem alguns problemas com a Universidade de Coimbra (UC), "que não gosta que estejam aqui os estudantes a oferecer postais", tendo já sido ameaçado que a polícia seria chamada.

"Este espaço é público e eu não estou a vender postais. Quando as pessoas não têm dinheiro, ficam com os postais à mesma", observa.

Contactado pela agência Lusa, o vice-reitor da UC Luís Menezes recusa que haja qualquer tipo de ameaça, mas sublinha que a instituição "não vê com agrado a realização de peditórios junto dos turistas, seja por que motivos forem".

"Não é essa a imagem que a UC quer dar aos turistas. Isso é típico de países do 3.º mundo", frisa, referindo que a instituição "já se preocupou em oferecer outro tipo de apoios para suprir as necessidades dos estudantes, como por exemplo candidatarem-se a atividades turísticas que outros estudantes fazem", dentro da Universidade.


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