Destino de "O Almoço do Trolha" devia ser um museu

Destino de "O Almoço do Trolha" devia ser um museu

 

Lusa/AO online   Nacional   29 de Mai de 2015, 15:07

O artista Júlio Pomar, 89 anos, ficou surpreendido por o quadro "O Almoço do Trolha" ter atingido 350 mil euros, e recordou que a obra, nos anos 1950, "por uma gralha" não foi para o Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Contactado pela agência Lusa, o artista plástico disse que sentiu "espanto" por a tela ter atingido valor tão elevado num leilão realizado na quarta-feira no Palácio do Correio Velho, em Lisboa, um recorde pessoal para o criador.

"Naturalmente que eu gostaria que a obra ficasse num museu e pudesse ser vista pelo público. Ela marcou um determinado momento do país, e eu quis fixar essa realidade", disse à Lusa Júlio Pomar.

O quadro "O Almoço do Trolha" é considerado pelos historiadores de arte um ícone do movimento Neorrealista português, e foi exibido ainda inacabado na Exposição Geral de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1947, durante a prisão de Júlio Pomar no Forte de Caxias.

Pomar foi detido pela PIDE, a polícia política de Salazar, e esteve preso durante quatro meses por resistência ao regime.

Júlio Pomar contou à Lusa que "O Almoço do Trolha" foi apresentado naquela altura na exposição das Belas-Artes por um valor de 10.000 escudos (hoje cerca de 50 euros).

"Na época todos os quadros exibidos apresentavam o preço junto à obra e era muito raro conseguir-se vender uma peça", comentou.

O artista contou que nessa altura foi criado um catálogo com as obras expostas e, por lapso, "O Almoço do Trolha" ficou marcado a 1.000 escudos (cerca de cinco escudos).

Diogo de Macedo era na altura o diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, em Lisboa, viu o catálogo e ficou interessado no quadro.

"Quando telefonou para a Sociedade Nacional de Belas Artes disseram-lhe que havia uma gralha no catálogo, e a obra custava 10 mil escudos. O diretor do museu desistiu da compra", relatou Pomar.

A obra viria a ser adquirida uns anos mais tarde por Manuel Torres - falecido este ano, um dos sócios fundadores da Gravura -- Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, por onde passaram dezenas de artistas, tornando-se, ao longo de meio século, uma das principais divulgadoras da arte moderna em Portugal.

Pomar foi um desses artistas pioneiros na Gravura: "Manuel Torres era meu amigo e por isso fiz um preço especial, de 5.000 escudos (25 euros)", recorda, sobre o colecionador que reuniu centenas de obras, mais tarde vendidas em conjunto à Caixa Geral de Depósitos (CGD).

Manuel Torres não inseriu "O Almoço do Trolha" naquele conjunto entregue à CGD, guardando-o na sua coleção pessoal.

Com 150 centímetros por 120, o quadro revela uma cena com uma família pobre, em que um trabalhador da construção civil come um modesto almoço sentado junto à mulher e ao filho.

Pomar disse à Lusa que via a cena diariamente, quando passava por ruas onde havia construção, e os trolhas faziam uma pausa para comer na rua, junto à mulher que lhes trazia o almoço.

"Tive uma vontade forte de pintá-la. Portugal era aquilo, muita pobreza", disse, recordando que com os 5.000 escudos que ganhou com o quadro fez a sua primeira viagem a Paris.

"Eu tinha vinte anos e não via futuro à minha frente. A minha perspetiva era vir a ser professor", conta o artista, que acabou por tornar-se um dos mais importantes artistas modernistas da História da Arte em Portugal.

Hoje, considera que, em certo sentido, a falta de esperança que vê hoje nos jovens portugueses "é semelhante à que sentida nos anos do antigo regime".

Depois do leilão ter sido anunciado, o Palácio do Correio Velho recebeu uma notificação da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) dando conta da abertura de um processo de classificação do quadro, podendo exercer o direito de preferência na compra.

"O Almoço do Trolha" acabou por ser comprado por um interessado que não se quis identificar, que, como novo proprietário de uma peça em processo de classificação, terá de dar conta à DGCP do seu paradeiro, não podendo sair do país sem autorização do Estado.

Contactada pela agência Lusa, a DGCP indicou que "não foi possível reunir a verba para adquirir o quadro".

Por seu turno, a leiloeira, fundada em 1989, disse à Lusa que é a primeira vez que uma obra de um artista ainda vivo é classificada, e que o preço alcançado pelo quadro "é um recorde de venda em leilão de um artista português vivo".

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