Cortiça complementa economia rural na Serra da Lousã e região

Cortiça complementa economia rural na Serra da Lousã e região

 

Lusa / AO online   Economia   18 de Set de 2016, 12:22

A extração de cortiça constitui uma atividade sazonal com importância económica, na Serra da Lousã, onde a indústria transformadora chega a pagar 10 euros por cada arroba (15 quilos) do produto.

 

A centenas de quilómetros dos montados de sobro e azinho que dominam a paisagem a sul do Tejo, numa zona onde novos eucaliptais não pararam de surgir nos últimos anos, o sobreiro (“Quercus suber”) sobrevive aos fatores que mais têm destruído a floresta autóctone.

De nove em nove anos, como previsto na lei, a recolha e comercialização da cortiça “pode funcionar como complemento de outras atividades” e dar algum rendimento às populações rurais, disse à agência Lusa o biólogo Carlos Fonseca.

Na Serra da Lousã, como em toda a região Centro, o sobreiro está junto às povoações, na berma de vias onde a extinta Junta Autónoma de Estradas plantou muitas dessas árvores, no século XX, entre pinhais moribundos afetados pelo nemátodo e outras pragas, em baldios do povo ou em terrenos privados.

Exemplares centenários, perdidos na paisagem, são relíquias de uma floresta mediterrânica que quase desapareceu em Portugal.

Apesar do abandono do interior montanhoso, que se acentuou depois da II Guerra Mundial, manchas de sobreiros e outras folhosas têm resistido aos incêndios e ao avanço de mimosas e outras invasoras.

Carlos Fonseca contabiliza quase 200 sobreiros nas parcelas de terreno que possui em São Pedro de Alva, concelho de Penacova e distrito de Coimbra, onde tem investido também na criação de medronheiros.

A plantação de sobreiros “pode ser uma boa aposta” com interesse económico futuro e que contribuirá para a sustentabilidade ambiental e a preservação da biodiversidade.

“É uma árvore adaptada ao ecossistema mediterrânico e que continua viva depois dos incêndios”, salienta.

Um tirador de cortiça assume a remoção da casca das suas árvores ardidas, agora em fase de regeneração natural, esperando que o docente e investigador da Universidade de Aveiro lhe confie a próxima extração.

Em 1990, um incêndio destruiu a Mata do Sobral, baldio da freguesia de Serpins, concelho da Lousã, onde o sobreiro é uma das espécies predominantes e está na origem do topónimo.

A cortiça queimada nunca foi extraída e o presidente da Junta, João Pereira, calcula que essa operação possa custar 1,5 milhões de euros ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Por incumbência dos compartes, a autarquia administra os baldios de Serpins em regime de cogestão com o Estado.

“Lamento que essa cortiça não tenha sido tirada na altura própria”, afirma João Pereira à Lusa, revelando que a Mata do Sobral tem 400 hectares de área.

Trata-se de “um património desperdiçado”, critica o comparte António José Ferreira, que já interveio em reuniões da Assembleia de Freguesia para denunciar a situação, com milhares de sobreiros cuja cortiça não se renova há 26 anos.

A agência Lusa tentou obter uma reação do ICNF, tendo a assessoria do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural remetido uma posição para mais tarde.

Residente em Vale de Afonso, Vila Nova de Poiares, José Manuel Silva dedica-se ao “descortiçamento” entre junho e agosto.

“Comprei este ano muita cortiça. Foram nove camiões carregados para uma fábrica de Santa Maria da Feira”, refere.

Ao dono da árvore, José Manuel pode pagar três a quatro euros por uma arroba da preciosa casca.

“É um trabalho com muita mão-de-obra e depois a cortiça, em armazém, ainda tem uma quebra de 20% no peso”, explica o tirador, que revende cada arroba por 10 euros.

Um sobreiro adulto poderá produzir 10 arrobas de cortiça ao fim de nove anos.

Há poucos meses, José Manuel Silva teve a sorte de extrair 60 arrobas (900 quilos) de uma árvore secular, na zona de Soure.

“Quatro homens não conseguiam abraçá-la”, regozija-se.

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