Christiano Júnior, o açoriano que marcou a história da fotografia da América Latina


 

Lusa/AO Online   Regional   20 de Nov de 2014, 09:54

O primeiro fotógrafo dos Açores foi Christiano Júnior, uma referência na América do Sul, onde, ainda no século XIX, fotografou a escravatura no Brasil e as novas cidades argentinas, diz o investigador Manuel Magalhães.

 

"Eu não encontro referências a fotógrafos açorianos anteriores, ou seja, em épocas anteriores aos anos 40/50 do século XIX. Portanto, para mim, é o primeiro nome que aparece e aparece fora dos Açores", afirmou Manuel Magalhães, que é arquiteto, mas se dedica à história da fotografia em Portugal, tendo feito uma investigação sobre a vida e obra de Christiano Júnior.

Manuel Magalhães pensava que Christiano Júnior era brasileiro, já que este esteve no Porto em 1865 integrado numa representação da época chamada "império do Brasil".

"Apesar disso, havia um elemento que era estranho, é que ele pedia aos organizadores para oferecer as fotografias ao rei português Dom Fernando, comecei a investigar, e afinal ele é açoriano, nasceu na ilha das Flores no dia 21 de julho de 1832 e emigrou para o Brasil em 1855 e a partir daí tem uma atividade grande na fotografia na América Latina", disse.

José Christiano de Freitas Henriques Júnior, depois de ter emigrado para o Brasil, passou ao Uruguai, viveu na Argentina, onde o investigador Manuel Magalhães ouviu falar dele enquanto português pela primeira vez, e morreu no Paraguai em 1902.

"Ele é considerado quase um símbolo nacional da Argentina porque fez uma documentação sobre o aparecimento das novas cidades que estavam a surgir na Argentina, nos anos 70/80 do século XIX, ou seja, o grande desenvolvimento da Argentina", conta.

Manuel Magalhães caracteriza-o como um homem "multifacetado e inovador" para a época e recorda a obra de Christiano Junior no Brasil, onde deixou uma marca histórica.

"Fotografou em estúdio os negros de ganho, os escravos não libertados que trabalhavam nas ruas do Rio de Janeiro, com as suas profissões e que no final do dia teriam de dar o que ganhavam ao seu patrão, ao seu dono. Ele aparece muito em teses da ordem da sociologia, por causa da escravatura e da sociedade do século XIX", atesta.

Com uma obra notável na América Latina, Christiano Júnior é desconhecido em solo açoriano, para onde Manuel Magalhães viajou há dois anos à procura do rasto daquele que acredita ser o primeiro fotógrafo açoriano.

"Tentei procurar sobretudo nas Flores mas também ninguém o conhecia, há um desconhecimento completo. Tentei falar com pessoas que ia encontrado, se já tinham ouvido falar dele mas ninguém sabia quem ele era", disse.

Nos Açores conseguiu apenas saber que Christiano Júnior era filho de pais solteiros, nasceu a 21 de julho de 1832, em Santa Cruz das Flores, e casou-se com Maria Jacinta Fraga, com quem teve dois filhos, José Vitorino e Frederico Augusto.

Entre 1901 e 1902, último ano da sua vida, Christiano Júnior escreveu ainda oito textos autobiográficos publicados num jornal, sendo que o investigador tem alguns na sua posse.

"Há um texto que ele designa 'um Carnaval em mi tierra', ou seja, um carnaval nos Açores, noutro escreve que nasceu no meio do Atlântico, a 300 léguas do pequeno reino de Portugal, um grupo de nove ilhas conhecido pelo grupo dos Açores. Fala ainda nas ilhas Flores e Corvo referindo que elas podiam caber dentro de um estado argentino", conta.

Manuel Magalhães já apresentou esta investigação em Ouro Preto, em Minas Gerias, no Brasil, e vai apresentá-la no final deste mês num encontro promovido pela Associação Amigos da Ilha das Flores e pela Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

 


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