Artigos de Opinião

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Sebastianismo(s)

Rolando Lalanda Gonçalves /

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Por vezes somos surpreendidos com a “notícia”. Mas na maior parte das notícias lemos ecos de “normalidade” mesmo que, na sua produção, pretendam revelar uma novidade. O espaço mediático tende, como qualquer sistema, à entropia? Estamos perante uma realidade social ambígua, ambivalente,….? Ou estamos apenas a viver a “carga simbólica” e permanente de um certo “absurdo” que acompanha lutas pelo poder? Não sei. Mas o que marca o quotidiano dos açorianos, e mais alargadamente o dos portugueses ou dos europeus, é o de uma certa perplexidade perante a rutura dos quadros ideológicos que garantiam e asseguravam uma certa estabilidade na vida social, política e económica.

Entramos numa era de risco? De incerteza? De crise de valores? Muitas são as opiniões que se manifestam na esfera pública. Para apenas considerar a crise do sistema político-partidário, verificamos um enorme diferencial entre a vontade de participar (veja-se o número elevado de simpatizantes e militantes do PS a votar em “primárias”) e a “qualidade” do debate de ideias que sustentou esta eleição que ocupou um amplo espaço mediático. Face a esta “realidade” construída os outros partidos analisam os resultados deste processo e preparam a difusão desta “inovação” que tem custos políticos e institucionais ainda não contabilizados. Um destes resultados é o regresso do arquétipo de um “sebastianismo” difuso.

Com efeito, a ideia de um “Dom Sebastião” que tudo resolverá cresce num ambiente onde o risco e a precariedade das relações sociais, económicas e culturais configuram uma “crise” económica, política e cultural. É que o frágil (do sonho) pode ser aparentemente forte e a força (da realidade) pode ser aparentemente anódina e irrelevante. Esta propensão coletiva para aderir a um líder sem ideias e sem projetos é por isso sintoma de uma sociedade que descarta o presente porque também se concebe sem futuro.

Dou por mim a pensar num recente colóquio acerca da comunicação social promovida pela Igreja Católica onde a temática de “um jornalismo descartável” esteve em debate. A excelente comunicação da jornalista Carmo Rodeia devia ser ouvida e meditada para melhor se compreender não apenas a lógica dos sistemas de informação mas sobretudo a natureza da sua “construção social”. Todavia a “culpa” do atual estado das coisas tem de ser assacada aos atores sociais, políticos económicos que descartaram a ética, a moral e “educação” das suas ações, e não aos mensageiros desta realidade difusa, imprecisa e por vezes caótica que nos é dado observar. “Os fins não justificam os meios”é ideia que continua a ressoar nos “sinos” por vezes rachados das consciências individuais e coletivas.

Voltamos sem nos darmos conta disso a uma outra questão que caracteriza este período histórico que nos é dado viver: o poder de nos enganarmos a nós próprios por querermos evitar a “dureza” dos factos que constatamos na nossa vida quotidiana. Que os Açores estão em crise económica, política e social, é verdade! Que muitos jovens buscam noutros espaços geográficos a sua realização profissional, é verdade! Que não estão a ser gerados na sociedade açoriana fatores de esperança, é verdade! Que a qualidade da nossa democracia está a decair, é verdade! Mas que estas “verdades” continuam a ser “manipuladas” e a serem desvalorizadas no debate político, também é verdade...

E chegados aqui, onde estão os atores sociais, políticos e económicos que denunciem e avancem com novas propostas? Provavelmente no “descanso” de uma ausência programada? Ou, a pensar que se nada for feito as “coisas” mudarão de sentido por um qualquer Dom Sebastião vindo das brumas do esquecimento? Estaremos, outra vez, coletivamente, a gerar efeitos sebastiânicos para evitar o agir coletivo consistente que altera a história? •
Rolando Lalanda Gonçalves