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Mais esquecidos e mais isolados

João Bruto da Costa /

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O novo modelo de acessibilidades aéreas dos Açores tem gerado alguma controvérsia pela discussão acerca da mobilidade dos açorianos com o exterior, e compreende-se que existam ainda muitas questões nas ligações com Lisboa e Porto que talvez só com tempo possam ser resolvidas para não levar a pensar que o modelo não está a servir bem algumas ilhas.

Para já, como resultado deste novo modelo, certo é que as passagens para os residentes e estudantes levaram uma brutal redução, o que só pode ser bom para todos, e isso não pode deixar de ser realçado.

Mas se a discussão em torno dos problemas ainda existentes nas ligações para fora da região tem ocupado muito do foro público, as ligações dentro dos Açores das ilhas mais pequenas, como a Graciosa, acabam por não ter o espaço de discussão pública que necessitam para que todos saibam que estas ilhas estão a sofrer um retrocesso de isolamento a que não assistíamos há muitos anos.

Quando muitos, legitimamente, se ocupam das preocupações das ligações com o continente, a Graciosa está a desesperar por ligações dentro dos Açores e também com o exterior.

Doentes da ilha Graciosa que hoje, quarta-feira, dia 29 de Abril de 2015 necessitam de se deslocar para a ilha Terceira para uma consulta médica, tiveram de se ausentar da Graciosa no passado sábado, ou seja, quatro dias antes do dia da consulta, porque os voos estão cheios não só à saída da Graciosa, mas também para deslocações à ilha.

A razão disto é simples: Segundas, terças e quartas ao final da manhã, o equipamento da SATA que serve (mal) a Graciosa é o Dash 200, com capacidade para cerca de 40 passageiros.

Por via desta “política” de mobilidade a ilha sente-se de regresso aos tempos em que se embarcava com uma semana de antecedência para chegar a tempo a Lisboa ou a Ponta Delgada. Mas para piorar isto, o caso em concreto é para deslocação à ilha Terceira, mesmo ali ao lado portanto.

A somar aos problemas das viagens interilhas, muitas vezes pouco valorizados quando se pensa somente nas deslocações para o exterior da região, o facto de a escolha dos equipamentos levar a constantes reservas em lista de espera, faz com que muitos que possam optar por visitar as ilhas mais pequenas mais facilmente desistam, levando ainda a um maior isolamento.

Acrescem as queixas de emigrantes, porque os horários para a Graciosa obrigam a pernoitas em outra ilha por uma questão de uma hora, ou até menos, ou as constantes queixas de pescadores que não conseguem exportar o produto do seu trabalho porque os equipamentos usados para as ligações com a ilha não têm capacidade de carga ou, ainda, o facto de os voos de quarta-feira pela manhã terem passado para o final da manhã, levando a que não haja dia nenhum em que a ilha tenha ligações que cheguem a Lisboa sem ser a horas de madrugada, perdendo um dia inteiro em viagem. Ou ainda aqueles que para uma consulta na ilha Terceira deixam de poder ir e voltar no mesmo dia, com todos os gastos que isso implica.

Quando esta legislatura prometia um avanço na mobilidade e no mercado interno. Quando o poder regional assumia como fulcral melhorar as acessibilidades, o que ilhas como a Graciosa assistem é ao constante adiar dessas promessas que, a par de outras, ficam sempre para vésperas de eleições. De ano para ano repetem-se os problemas, alguns até se agravam e levam à continua desertificação. Sobre tudo isto não querem alguns prestar contas na sua propaganda de regime. Mas os graciosenses, novamente, não esquecem!•

*Deputado na ALRAA pelo PSD/A