Zita Mendes, a artesã que regressou às origens rendida ao ofício da tecelagem no Corvo
19 de out. de 2024, 10:35
— Lusa
Natural da mais pequena
ilha dos Açores, Zita Mendes, com perto de 40 anos, esteve durante 19
anos a residir na ilha Terceira. Há dois anos "voltou para ficar" no
Corvo, apercebendo-se que "tinha permanecido demasiado tempo fora"."Aqui
[no Corvo] a vida é mais calma e em cinco minutos chega-se a qualquer
lado. O carro só é necessário quando o tempo é mais rigoroso", durante o
inverno, descreve à agência Lusa Zita Mendes.A
artesã ficará para a história do Corvo como a primeira tecelã
credenciada para revitalizar um saber extinto, que pertencia à memória
coletiva da comunidade corvina, segundo o Ecomuseu local.Está
desde 09 de julho credenciada no CADA (Centro de Artesanato e Design
dos Açores) como artesã da ilha do Corvo dedicada à tecelagem, ainda de
acordo com o Ecomuseu do Corvo, que desenvolve um projeto para
revitalizar uma tradição corvina que se extinguiu na segunda metade do
século XX, mais concretamente em 1969.Zita
Mendes e a mãe, Maria Conceição Mendes, são as duas artesãs no ativo na
arte da tecelagem, produzindo pequenas peças de artesanato. Zita assume
que tem “alguma aptidão” para o ofício, porque "herdou da mãe".“Talvez um pouco por aí é que ganhei o gosto por este tipo de artes”, confessa.Primeiro foram os tradicionais gorros de lã, típicos da ilha do Corvo e agora a tecelagem."Já
fazia o gorro tradicional, mas a tecelagem veio na sequência dessas
formações. Tive a sorte de ter um bom formador do continente. Sempre que
vou sabendo mais, vou tendo mais vontade", conta.Não se dedica a 100% à tecelagem, pois tem uma profissão ligada ao turismo, mas garante estar de "alma e coração" neste ‘hobby’.“Esta é uma arte que tem muito por onde explorar e muito por onde crescer. Quanto mais vou aprendendo mais gosto”, afirma.Zita Mendes já tinha um tear que herdou da mãe, mas adquiriu recentemente outro, em segunda mão."Este
ainda não chegou à ilha. Tem um metro de largura e permite fazer peças
mais largas e é mais rápido", explica, assinalando que tem "um certo
gosto" pelas peças tradicionais, como almofadas ou sacos de pano para a
tradição do "Pão por Deus", no dia de Todos os Santos, assinalado em 01
de novembro.Para a artesã, a arte da tecelagem está "no pano"."O
pano é que é a arte, aí é que se pode fazer inúmeras coisas. Só depois é
que vem a costura, outro desafio para mim, porque não sou costureira",
destaca.Depois, a produção "é relativamente rápida", segundo a artesã, que consegue confecionar o pano "em meio-dia ou até menos".Por agora, as peças que produz são para venda na ilha, referindo que os turistas "apreciam muito". A
artesã destaca a importância das formações e o impulso dado a este
ofício, numa ilha com cerca de 400 habitantes e onde o tempo "não corre"
à velocidade das grandes cidades."Temos
mais disponibilidade de tempo, principalmente no inverno, para explorar e
criar. Acho que a iniciativa do Ecomuseu é uma mais-valia", considera.