Zelensky afasta alta figura do seu gabinete após operação anticorrupção
Ucrânia
Hoje 15:20
— Lusa/AO Online
Este
caso surge um dia depois de o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov,
cuja demissão em julho gerou uma vaga de contestação popular, ter
dirigido duras críticas sobre a situação de corrupção na Ucrânia e
pedido condições para a realização de eleições em tempo de guerra. A
demissão de Iryna Mudra foi anunciada no ‘site’ da presidência
ucraniana, no dia em que o Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia
(NABU) e a Procuradoria Especial (SAP) mostraram na rede Telegram a
realização de uma “operação especial”.As
autoridades indicaram que a operação visou uma "organização criminosa"
que operava sob a direção de um parlamentar ucraniano em exercício e de
um ex-parlamentar, "com a participação de altos funcionários da
presidência ucraniana e outros". O
deputado ucraniano em causa, Vadym Stolar, declarou nas redes sociais
que a sua casa foi alvo de buscas por parte dos investigadores e que
está a "cooperar plenamente" com as autoridades anticorrupção.O
jornal The Kyiv Independent apresenta Vadym Stolar como um, deputado
que representava a fação pró-russa Plataforma de Oposição-Pela Vida no
parlamento até ter sido banida no seguimento da invasão das tropas de
Moscovo, em 2022. Atualmente é independente e representa o grupo Restauração da Ucrânia, uma dissidência da Plataforma de Oposição-Pela Vida.Segundo
o NABU, os suspeitos terão lavado 150 milhões de hryvnias (cerca de 2,8
milhões de euros) para pagar a caução de um arguido noutro grande caso
de corrupção que abalou a Ucrânia no ano passado.Este
caso envolveu um grande desfalque no setor energético e provocou a
demissão dos ministros da Justiça e da Energia, bem como a saída de
Andriy Yermak, chefe de gabinete presidencial e braço direito de
Zelensky. Era na altura considerado um dos homens mais influentes da
Ucrânia.De acordo com os investigadores,
este vasto esquema de corrupção foi orquestrado por Timur Mindich, um
empresário considerado um amigo próximo do chefe de Estado.A
corrupção é um flagelo recorrente na Ucrânia há muitos anos e o seu
combate foi uma bandeira eleitoral de Zelensky quando chegou ao poder em
2019 e uma exigência vital da União Europeia no processo de adesão de
Kiev. Vários grandes escândalos eclodiram
desde o início da invasão russa, incluindo no setor da Defesa e das
forças armadas, levando ao afastamento de vários membros do Governo,
oficiais militares e titulares de cargos públicos. No entanto, até à data, as operações do NABU e do SAP raramente resultaram em condenações.Em
2025, Zelensky enfrentou amplas manifestações de protesto que o
acusavam de procurar retirar a independência dos dois órgãos
anticorrupção, mas acabou por recuar nas suas intenções perante a
contestação da sociedade civil e dos aliados ocidentais de Kiev.Na
terça-feira, O ex-ministro da Defesa Mikhail Fedorov apelou para a
criação de condições para a realização de eleições, apesar da invasão
russa, como forma de "restaurar um processo democrático pleno".Fedorov,
cuja demissão gerou um movimento popular de apoio ao seu regresso ao
Governo, argumentou que “a democracia não pode ser feita refém da
Rússia”.A Ucrânia encontra-se sob lei
marcial desde o inicio da guerra, levando à renovação automática dos
mandatos dos cargos dos titulares políticos, incluindo Zelensky.Além
dos impedimentos legais, as autoridades ucranianas alertam para a
dificuldade em realizar uma votação nacional segura quando parte da
Ucrânia está ocupada pela Rússia, que também bombardeia o país todos os
dias.Além disso, milhões de ucranianos
encontram-se na situação de refugiados no estrangeiro ou estão
deslocados no país e largos milhares de soldados foram destacados para
as frentes de combate.Num discurso
transmitido na plataforma Youtube, Fedorov pediu também aos titulares de
cargos públicos que sejam transparentes e prestem contas, em referência
aos casos de corrupção que abalaram o país nos últimos anos."Poder
deve significar responsabilidade", insistiu Fedorov, que exigiu também
melhor comunicação ao Governo, ao advertir que “a extraordinária
confiança concedida às autoridades em tempo de guerra” não lhes dá
"licença para agir sem explicações".O
ex-ministro foi substituído no mês passado quando já eram públicas as
divergências com o então chefe das forças armadas, Oleksandr Syrsky.