"Vulcão dos Capelinhos tem potencial para ser laboratório de exploração de Marte"
20 de out. de 2020, 10:35
— Lusa/AO Online
“Nós conseguimos ver Marte na Terra
através do vulcão dos Capelinhos”, afirmou James Garvin em entrevista à
agência Lusa via telefone, a propósito da expedição da NASA que usou o
vulcão da ilha do Faial para treinar a exploração da paisagem de Marte.James
Garvin falava à Lusa no âmbito das comemorações dos 500 anos da viagem
de circum-navegação de Fernão de Magalhães, nas quais participará, na
quarta-feira, em direto através de uma plataforma digital.
A iniciativa GLEX-Global Exploration Summit é um evento digital em
‘live streaming’ e contará com vários oradores além James Garvin.A
expedição levou cientistas da agência espacial norte-americana (NASA),
do Reino Unido e de Portugal a estudar o vulcão que nasceu do mar no
final dos anos 1950, em condições muito semelhantes às que se terão
verificado em Marte há mil milhões de anos.James
Garvin, que dirigiu o departamento científico da NASA entre 2004 e
2005, afirmou que o vulcão dos Capelinhos é “absolutamente importante”
para a ciência planetária e um “livro aberto” para os cientistas.“São
muito poucos os sítios na Terra onde podemos ver um sistema vulcânico
desde o nascimento até ao seu estado posterior de vida. O vulcão dos
Capelinhos foi o primeiro que os cientistas de vários países estudaram
de forma tão cuidadosa”, observou o cientista-chefe do Centro de Voo
Espacial Goddard da NASA.Para o cientista,
o vulcão dos Capelinhos deveria ser “usado como laboratório” permitindo
estudar o sistema vulcânico em Marte para perceber se “talvez existem”
antigos registos de vida naquele planeta.“O
vulcão de Capelinhos, as suas rochas e a sua história são importantes
para Marte”, sublinhou James Garvin, que lidera agora missão DAVINCI+,
uma das quatro investigações selecionadas do Programa de Descobertas da
NASA.A missão, uma homenagem ao artista e
cientista renascentista Leonardo da Vinci, tem como rumo planetário
Vénus, “uma peça de arte de planeta”, caracterizou James Garvin.Apesar
dos EUA já não estudarem a atmosfera de Vénus desde 1978 (ano da última
missão ‘in situ’ em Vénus), o cientista acredita tratar-se de “uma
questão de tempo”.“Precisámos de olhar
para Vénus para ver o nosso próprio destino e é por isso que queremos
voltar. As pessoas precisam de regressar para conectar Vénus com a
Terra”, afirmou.Questionado sobre como
seria possível conectar dois planetas, aparentemente, tão distintos,
James Garvin disse acreditar que “Vénus pode ter tido oceanos com água
em estado líquido como a Terra há biliões de anos”.“Não
conseguimos provar isso, por isso é que precisamos de lá voltar, com
uma nave espacial sofisticada para descobrir”, salientou o cientista,
acrescentando que Vénus pode ser “um ingrediente ausente” nos estudos
planetários.“E se Vénus tivesse vida? E se
Vénus for um elo perdido de como o planeta evoluiu e passou do mundo
dos oceanos, como a Terra, para mundos que não são assim?”, questionou.Para
tentar responder a estas e outras questões, a missão DAVINCI+ pretende
analisar a atmosfera de Vénus e entender como ela “se formou e evoluiu”.Quanto
aos desafios que uma missão a Vénus coloca, James Garvin enalteceu que o
fundamental é “escolher a melhor engenharia” e “ser inteligente,
inovador e criativo”.“Quando formos a
Vénus temos de ter engenharia e tecnologia especial para estarmos
preparados para desafios que não podemos confrontar e que não podemos
derrotar. Se formos capazes disso, então podemos ir a qualquer lado”,
afirmou.E acrescentou, “Vénus pode ser o
exemplo de que podemos explorar os lugares mais difíceis do espaço. Se
enviamos humanos para a Lua, se enviamos robôs para Marte, então também
conseguiremos enviar uma nave espacial robótica para Vénus”.