Vitorino Nemésio revisitado pela doação de inéditos do escritor
8 de fev. de 2023, 18:17
— Lusa
A diretora da Biblioteca
Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro, Claúdia Cardoso, disse
à Lusa que os herdeiros de um primo de Nemésio entenderam depositar
todo este espólio do autor de “Mau Tempo no Canal” naquela instituição, a
par de livros, uma vez que este património apresentava “já sinais
visíveis de deterioração”, o que vai implicar uma intervenção de
conservação e restauro.O espólio legado,
que permite revistar a sua vida e obra, contempla postais ilustrados,
“sobretudo da altura em que Nemésio viajou por França, Bruxelas e
Brasil” e enviava-os às tias, primas e uma afilhada, bem como aos
próprios país, especifica Cláudia Cardoso.A
também investigadora ressalva que, “de certa forma, é possível traçar o
percurso biográfico do escritor, que é conhecido”, mas “aqueles
documentos em particular, não”.O depósito
de documentos contempla também cartas dirigidas pelo escritor a sua mãe,
que abordam “muitos aspetos pessoais, alguns de interesse”, assim como
fotografias inéditas, como uma que mostra Nemésio, ainda pequeno, com
cerca de três anos.Isto a par de outras
que ilustram a sua presença em convívios em Porto Martins, na ilha
Terceira, com pessoas que lhe eram próximas.Apesar
da documentação de Nemésio já estar distribuída pela Biblioteca
Nacional e Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, Cláudia Cardoso
sublinha o seu agrado por “ainda surgir o interesse e cuidado por parte
de familiares na conservação patrimonial conscientes que a instituição
reúne as características certas para acolher esta documentação”.“O
que assistimos naqueles documentos é a perspetiva pessoal da saudade de
casa e dos familiares, uma vez que, na altura, as viagens não se faziam
com a rapidez de hoje, implicando meses e anos de ausência”, afirma a
responsável pela Biblioteca Luís da Silva Ribeiro, que salvaguarda que a
documentação agora doada permite aos estudiosos de Nemésio enriquecer a
sua visão sobre o autor.Uma edição das
obras completas do escritor Vitorino Nemésio, em 16 volumes, começou a
se lançada em 2018, numa iniciativa da editora Companhia das Ilhas com a
Imprensa Nacional.Vitorino Nemésio, cuja
obra literária compreende, entre outros, o título "Mau Tempo no Canal",
considerado pela crítica literária um dos maiores romances portugueses
do século XX, nasceu em 19 de dezembro de 1901, na Praia da Vitória, na
ilha Terceira, e morreu em Lisboa, em 20 de novembro de 1978.A
sua obra compreende cerca de 40 títulos na área da ficção, poesia,
ensaio e crítica, a par da crónica, como “Festa Redonda” (1950), “Nem
Toda a Noite a Vida” (1952), “O Pão e a Culpa” (1955), “O Verbo e a
Morte” (1959), “O Cavalo Encantado” (1963), “Canto da Véspera” (1966) e
“Sapateia Açoriana” (1976), além de “Mau Tempo no Canal” (1944). A
Vitorino Nemésio é atribuída a criação do termo “açorianidade”, num
artigo sobre a condição histórica, geográfica, social e humana do
açoriano, publicado em 1932.Apesar do seu
potencial literário, Vitorino Nemésio ganhou visibilidade nacional
através do seu programa semanal, na RTP 1, "Se bem me lembro", entre
1969 e 1975.